Estados Unidos e Coreia do Sul encerram nesta sexta-feira (21) o Ulchi Freedom Shield, principal exercício militar conjunto de verão dos dois aliados, seis dias antes do previsto. O corte foi determinado pelo presidente americano Donald Trump, que quer reduzir as manobras na Península Coreana enquanto tenta retomar o diálogo com o líder norte-coreano Kim Jong-un.
Segundo o jornal militar americano Stars and Stripes, o exercício começou na segunda-feira (17) e iria até 27 de agosto, num total de 11 dias. Com a ordem de Trump, termina com apenas cinco dias de duração. O anúncio foi feito na quarta-feira (19) pelo Estado-Maior Conjunto sul-coreano, que disse ter ajustado a duração e a escala das manobras "seguindo sugestão dos EUA".
Trump havia pedido no domingo (16), em publicação na rede Truth Social, que os aliados reduzissem "substancialmente" os exercícios. Ele citou o custo das operações, classificou as manobras como um sinal "inapropriado e hostil" à Coreia do Norte e mencionou sua boa relação com Kim Jong-un. O presidente também reclamou da recusa da Coreia do Sul em apoiar os EUA no conflito com o Irã — segundo ele, ao ser consultado, o governo sul-coreano respondeu "não, obrigado".
De acordo com a agência Associated Press, autoridades sul-coreanas afirmaram que não foram avisadas antes da publicação. O ministro da Defesa, Ahn Gyu-back, confirmou que a ordem foi "unilateral". O Pentágono informou que parte dos treinamentos foi cancelada ou convertida em simulações, mas garantiu que "não haverá degradação dos objetivos de treinamento".
A Coreia do Norte reagiu com frieza. Kim Yo Jong, irmã e porta-voz informal de Kim Jong-un, disse que o gesto "não merece comentários" e que "a natureza provocativa e agressiva dos exercícios não muda, mesmo com duração e tamanho reduzidos", em declaração divulgada pela agência estatal KCNA e repercutida pela AP. Ela também negou que haja comunicação entre Trump e o irmão — o americano afirma que Kim respondeu de forma "muito positiva" a um pedido de conversa.
Apesar do tom, Kim Yo Jong evitou a retórica dura habitual, descreveu a relação entre os dois líderes como "ótima" e lembrou que o irmão guarda "boas memórias" de Trump. Analistas ouvidos pela AP avaliam que Pyongyang tenta preservar o canal com Washington enquanto busca concessões maiores para voltar a negociar: Kim exige que os EUA abandonem a desnuclearização como pré-condição do diálogo.
Segundo o Wall Street Journal, citado pelo Stars and Stripes, Trump pressiona assessores para organizar um encontro com Kim já nos próximos meses, possivelmente durante a cúpula da Apec, em Shenzhen, na China. Os dois se reuniram três vezes entre 2018 e 2019, sem chegar a acordo sobre o programa nuclear norte-coreano.
O Ulchi Freedom Shield é, em grande parte, um exercício de simulação por computador que testa a resposta conjunta dos aliados a um eventual ataque. A fase cancelada, prevista para a próxima semana, treinaria operações de contraofensiva — etapa à qual Pyongyang é especialmente sensível, segundo a imprensa sul-coreana. Dias antes do início das manobras, a Coreia do Norte lançou dois mísseis balísticos ao mar.
Em Seul, a decisão reacendeu o debate sobre a prontidão da aliança militar, firmada após a Guerra da Coreia (1950-1953). O governo do presidente Lee Jae Myung diz esperar que a aproximação entre Trump e Kim leve a um "diálogo significativo", enquanto a oposição conservadora acusa o governo de priorizar a diplomacia em detrimento da segurança.