O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, condicionou a volta do embaixador brasileiro em Buenos Aires ao fim dos ataques do presidente argentino Javier Milei contra o governo e as instituições do Brasil. A declaração foi dada ao jornal argentino Clarín e publicada neste domingo (9 de agosto), no momento mais tenso da relação entre os dois países em décadas.
"É preciso um gesto: o de parar as agressões", afirmou o chanceler ao diário argentino, ao ser questionado sobre quando o embaixador Julio Bitelli voltaria ao posto. Ele mesmo respondeu à própria pergunta: o retorno ocorre "quando cessarem as condições que provocaram sua saída".
Segundo o Poder360, que reproduziu a entrevista nesta manhã, Vieira falou no sábado (8), enquanto estava em Cali, na Colômbia, onde representou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na posse do presidente colombiano Abelardo de la Espriella.
O que disse o chanceler
Vieira classificou as ofensas de Milei como graves e disse que o Brasil precisa saber se o governo argentino ainda considera a relação bilateral prioritária. "Essas ofensas foram muito graves. Portanto, essa relação deve ser preservada, as agressões suspensas e o caminho para a normalidade na relação bilateral retomado", declarou, conforme a transcrição publicada pelo Poder360.
O chanceler também rebateu a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria bancado parte de uma suposta campanha contra a Argentina e financiado a candidatura presidencial de Sergio Massa em 2023. Vieira chamou a versão de "totalmente falsa" e disse tratar-se de "invenções, não eventos reais".
Questionado sobre a alcunha de "comunista" atribuída a Lula por Milei e por dirigentes do La Libertad Avanza, o ministro respondeu que a caracterização "surpreende", segundo o Canal 26 e o Perfil. Ele afirmou que o presidente brasileiro nunca buscou alterar o caráter capitalista da economia do país e atribuiu a definição à "visão do presidente argentino".
Apesar do impasse, Vieira disse que o Brasil continua tratando a Argentina como sócio estratégico e destacou o peso do comércio entre os dois países.
Relembre o caso
A crise começou em 25 de julho, quando Milei discursou na convenção nacional do PL, em São Paulo, que oficializou a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência. No evento, o argentino chamou Lula de "ladrão" e "presidiário" — o Perfil registrou ainda outros termos ofensivos usados na ocasião.
A reação brasileira foi escalonada: primeiro a convocação de Bitelli a Brasília, depois a ida do embaixador argentino Daniel Raimondi ao Itamaraty e, na sequência, o rebaixamento da representação diplomática em Buenos Aires ao nível de encarregado de negócios. Há divergência sobre a data exata dessa última medida: o Poder360 registra 5 de agosto, enquanto Band e Infobae noticiaram a decisão em 4 de agosto.
Na mesma entrevista, Vieira tratou da tensão com os Estados Unidos e disse que a suspensão do visto da embaixadora Maria Luiza Viotti em Washington foi uma forma de pressionar pela aceitação de Daniel Perez como embaixador norte-americano no Brasil. O pedido de agrément, segundo ele, sequer chegou a Lula: "Ele está muito ocupado a 2 meses da eleição".
O outro lado
Poucas horas depois das declarações do chanceler, Milei voltou a atacar Lula pelas redes sociais. De acordo com o Perfil, o presidente argentino compartilhou uma publicação do congressista republicano norte-americano Carlos A. Giménez, que chamou o brasileiro de "corrupto" e "criminoso", e comentou apenas: "UPs!".
O governo argentino não se manifestou formalmente sobre a entrevista até a publicação desta reportagem. Em 29 de julho, ainda no início da crise, o chanceler argentino Pablo Quirno havia dito ao Perfil que não há "nenhuma chance" de ruptura das relações partindo de Buenos Aires e que as diferenças entre os dois governos são "políticas e ideológicas". Na mesma ocasião, porém, ele afirmou: "Achamos que o que Lula está fazendo no Brasil não é o que corresponde".