O governo dos Estados Unidos acusou o Brasil de impor "censura" depois que a rede social X alterou seu algoritmo para cumprir a legislação eleitoral brasileira. A mudança passou a valer no domingo (16), primeiro dia oficial de campanha, e tira perfis e publicações de candidatos das recomendações automáticas da plataforma.
A crítica partiu de Sarah B. Rogers, subsecretária de Estado para a Diplomacia Pública e Assuntos Públicos. Segundo a CNN Brasil, ela reagiu nas redes ao comunicado do X e escreveu: "Esse tipo de transparência algorítmica é exatamente o que muitos reguladores afirmam querer. Ela também marca a censura imposta pelo Brasil."
O que muda na aba "Para Você"
O X anunciou a alteração na sexta-feira (14). Pelas novas regras, contas oficiais de candidatas e candidatos registradas na Justiça Eleitoral deixam de ser sugeridas na aba "Para Você" — espaço em que a plataforma exibe conteúdo escolhido por algoritmo — a usuários que não sigam esses perfis.
Não se trata de bloqueio. "Os candidatos oficiais não estão suspensos e seu conteúdo vai permanecer disponível em seus perfis. Essa medida deverá afetar a visibilidade e alcance dos perfis e de seus conteúdos", informou a rede social em nota reproduzida pelo Metrópoles. Quem já segue a conta ou procura diretamente pelas publicações continua vendo o material.
Para operacionalizar a regra, o X criou um recurso batizado de "Brazil2026ElectionFilter" — "Filtro para as Eleições Brasileiras de 2026". O código de programação é público e está disponível no repositório do algoritmo da empresa. Levantamento do Metrópoles apontou 651 contas listadas no filtro até a publicação da reportagem.
A regra do TSE
A plataforma afirma que apenas cumpre a Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A norma exige que provedores que operam sistemas de recomendação excluam dessas sugestões as contas oficiais de candidatos registradas na Justiça Eleitoral e as publicações dessas contas. Há exceção prevista para as "hipóteses legais de impulsionamento pago" — ou seja, a propaganda contratada segue permitida dentro das regras eleitorais.
"Estamos implementando essa medida para o estrito cumprimento da Resolução TSE nº 23.610/2019. Não é sanção nem mudança das regras do X. Estamos comprometidos em estabelecer um novo padrão de transparência sobre nossos algoritmos", declarou a empresa, conforme a CNN Brasil.
Tensão que vem de antes
O episódio se soma ao desgaste entre os governos Lula e Trump. Em entrevista aos podcasts Não Inviabilize e As Cunhãs, na sexta-feira (14), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que quer tratar do assunto diretamente com o americano. "Estou tentando manter o contato com ele que eu quero ter uma conversa tête-à-tête com ele. E vou dizer: não se meta nos negócios do Brasil, sobretudo na questão da eleição", afirmou, segundo o Metrópoles.
A relação entre o X e o Judiciário brasileiro também tem histórico. Em 2024, a plataforma controlada por Elon Musk chegou a ficar suspensa no país por descumprir decisões judiciais. O serviço só voltou a operar depois de a empresa se comprometer a nomear um representante legal no Brasil e manter a constituição da companhia "X Brasil Internet Ltda.". Para o Supremo Tribunal Federal (STF), as exigências eram necessárias para que a rede se adequasse ao ordenamento jurídico brasileiro.
O filtro vale durante o período eleitoral, iniciado em 16 de agosto.