O Google fechou com a fabricante de semicondutores Marvell Technology um acordo para o desenvolvimento de chips personalizados de inteligência artificial que inclui a opção de compra de uma participação de até US$ 12,2 bilhões na empresa. Anunciado na quarta-feira (19), o negócio seguiu repercutindo no mercado e no setor de tecnologia nesta quinta-feira (20).
Segundo a agência Reuters, o contrato dá ao Google um "warrant" — instrumento que garante o direito de compra futura — de até 58,97 milhões de ações da Marvell, a US$ 206,58 cada. Se exercida integralmente, a opção equivale a US$ 12,18 bilhões e tornaria o Google o quinto maior acionista da companhia.
A reação do mercado foi imediata. As ações da Marvell saltaram quase 8% após o anúncio, segundo a Reuters; no melhor momento do pregão, a alta chegou a cerca de 10%, de acordo com a CNBC. Já a Broadcom, até aqui a principal parceira do Google em chips personalizados, caiu mais de 5%. Os papéis da Alphabet, controladora do Google, fecharam praticamente estáveis.
O potencial financeiro é grande: se o Google cumprir as metas de compras previstas no contrato, o acordo pode render à Marvell cerca de US$ 120 bilhões em receita até o ano fiscal de 2033, ainda segundo a Reuters. De acordo com a CNBC, quase 1,4 milhão de ações são liberadas já no primeiro ano, e o restante sai em lotes vinculados a cada US$ 500 milhões em chips comprados pelo Google.
O pacote abrange um leque amplo de tecnologias usadas com as TPUs (unidades de processamento tensorial), os chips que o próprio Google projeta para inteligência artificial: processadores que rodam modelos, componentes que gerenciam armazenamento de dados e soluções de rede que movem informação entre servidores.
A demanda por chips próprios como as TPUs disparou porque as empresas buscam alternativas mais baratas às caras GPUs da Nvidia — sobretudo para inferência, o processo de rodar modelos de IA já treinados, destaca a Reuters. Uma reorganização recente da divisão de IA do Google, que fortaleceu executivos ligados ao Google Cloud, também colocou os chips personalizados no centro da estratégia da empresa.
O negócio se soma a uma sequência de acordos bilionários que entrelaçam cada vez mais as gigantes da IA. Dias antes, a Nvidia aceitou garantir até US$ 105 bilhões para um projeto de data center que a OpenAI vai alugar em Ohio. Em outubro, foi a AMD que fechou fornecimento de chips à OpenAI, com opção de a dona do ChatGPT comprar cerca de 10% da fabricante.
"É uma grande vitória para a Marvell", disse à Reuters o analista William Kerwin, da Morningstar. Para ele, porém, a notícia representa "um bolo crescendo no Google, com novas fontes de fornecimento, e não um deslocamento competitivo da Broadcom".
O movimento ilustra uma mudança de papel das big techs na corrida da IA: de simples clientes, elas passam a participar ativamente do projeto de semicondutores — e a investir diretamente nos fornecedores que sustentam sua infraestrutura, como observou o site especializado TechStartups.