O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira (20) um pacote de R$ 2,5 bilhões para ampliar a infraestrutura de inteligência artificial no Brasil. O plano inclui a compra de um supercomputador, que será instalado no Rio Grande do Norte, e uma parceria com a chinesa Huawei para criar um centro de computação avançada no Rio de Janeiro.
Segundo reportagem da Folhapress, o anúncio foi feito em pronunciamento no Parque Tecnológico de Macaíba, a cerca de 30 quilômetros de Natal (RN). Os recursos sairão do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA).
A maior fatia, de cerca de R$ 1 bilhão, vai para o edital de compra do supercomputador. A máquina deverá operar com 7.200 petaflops em precisão de 16 bits — o equivalente a 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo. É uma capacidade mais de 260 vezes superior à do Santos-Dumont, hoje o supercomputador mais potente do país, com 27 petaflops.
A diferença muda a escala do que o Brasil consegue fazer em IA. Treinar um modelo de linguagem do porte do GPT-4 levaria 11 anos no Santos-Dumont, de acordo com a Folhapress. Na nova máquina, a mesma tarefa poderia ser concluída em cerca de um mês.
O equipamento ficará no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, na região metropolitana de Natal. Ao justificar a escolha do Nordeste, Lula afirmou: "Eu não tenho nada contra o Sul, nem contra o Sudeste. Mas não é justo colocar todo o investimento onde já está toda riqueza". O edital exigirá contrapartidas da vencedora, como transferência de tecnologia e capacitação de 5 mil brasileiros em cinco anos. A Nvidia é apontada como principal fornecedora possível, com alternativas da AMD, da Intel e do Google.
Outra frente é o centro de computação avançada no Rio de Janeiro, fruto de cooperação entre a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e a Huawei, com participação da também chinesa iFlytek. O centro, previsto para começar a operar em 2027, receberá R$ 1,27 bilhão e terá a missão de desenvolver um grande modelo de linguagem em português e espanhol, nos moldes de ChatGPT e Claude, além de treinar 3 mil profissionais brasileiros.
O pacote reserva ainda R$ 125 milhões para o desenvolvimento de chips livres de patente, baseados na arquitetura aberta RISC-V e operados pelo Instituto Eldorado, de Campinas (SP), e R$ 50 milhões para um Centro de Transparência Algorítmica coordenado por pesquisadores da UFMG, que avaliará riscos e falhas dos modelos de IA disponíveis no mercado. Completa a lista a estruturação de uma "nuvem brasileira", com servidores fabricados no país sob gestão do Serpro e da Dataprev, ainda sem custo definido no orçamento.
O anúncio tem forte pano de fundo geopolítico. Cinco dias antes, a agência Reuters revelou uma ofensiva da Casa Branca para isolar a China no desenvolvimento de IA: o governo Donald Trump deve alertar 35 países, incluindo o Brasil, de que quem fizer negócios com os chineses pode ficar de fora de uma coalizão de investimentos em tecnologia liderada pelos americanos.
A ministra da Ciência e Tecnologia, Luciana Santos, reconheceu em entrevista à Folha de S.Paulo que a compra envolve "incertezas e riscos", já que "os Estados Unidos ameaçam cessar o fornecimento a quem fizer negócios nessas áreas mais críticas com a China".
Lula, porém, minimizou a disputa. "Hoje os Estados Unidos têm 65% de toda essa coisa de inteligência artificial. A China deve ter uns 15% ou 30%. Mas nem chinês nem americano é melhor do que nós, nós vamos entrar nesse mercado", disse o presidente.