O governo brasileiro saiu da primeira reunião oficial com os Estados Unidos sobre o tarifaço com a leitura de que há espaço para acordo. O encontro por videoconferência ocorreu na tarde desta segunda-feira (31) e foi o primeiro contato formal entre os dois países sobre tarifas desde 15 de julho, quando a Casa Branca aplicou as sobretaxas a produtos brasileiros. Esta reportagem atualiza a matéria publicada pelo Apuramos em 26 de agosto, que antecipou a marcação do encontro.
Segundo o Metrópoles, a conversa durou cerca de 40 minutos e reuniu o representante do Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o chanceler Mauro Vieira. O Brasil de Fato informou que o assessor presidencial Audo Faleiro também participou e que a reunião estava marcada para as 14h30.
Não houve anúncio de redução de tarifas. Ainda assim, Márcio Elias Rosa afirmou em entrevista coletiva ter recebido um “sinal verde” do governo norte-americano para retomar as negociações. O ministro disse ainda que Greer informou ter partido do presidente Donald Trump o pedido para que as tratativas fossem reabertas.
“Eu continuo mais otimista do que estava na semana passada, sobretudo agora, depois de telefonemas do presidente Lula com Trump. Parece haver, de fato, uma orientação clara do governo americano para que haja um acordo com o Brasil. Um acordo que reequilibre a relação, que equilibre a política tarifária”, declarou o ministro, conforme o Metrópoles.
Em nota divulgada após o encontro, o Itamaraty afirmou que “as partes concordaram em voltar a reunir-se em nível ministerial, em data oportuna, a fim de revisar o progresso alcançado nas tratativas bilaterais e nas reuniões técnicas que serão realizadas nas próximas semanas”. Uma nova data ainda não foi definida.
O que está em jogo
Os Estados Unidos aplicaram duas sobretaxas ao Brasil. A primeira, de 25%, decorre de investigação do USTR baseada na Seção 301 da lei de comércio norte-americana, que apontou supostas práticas comerciais desleais em seis setores — entre eles o Pix, políticas de desmatamento, propriedade intelectual e etanol. A segunda, de até 12,5%, alcança o Brasil e mais de 60 países, além da União Europeia, sob a alegação de falhas no controle de mercadorias produzidas com trabalho escravo.
Nos casos em que as duas alíquotas se somam, a tributação chega a 37,5%. Dados do MDIC citados pelo Brasil de Fato indicam que as medidas afetam, isolada ou cumulativamente, cerca de 23,1% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, tomando 2024 como base.
Interlocutores do governo ouvidos pelo Metrópoles avaliam que a tarifa de 25% tem margem para ser negociada ou até revertida, e é nela que o Planalto concentra as apostas.
Como se chegou até aqui
A reabertura do canal foi acertada em telefonema entre Lula e Trump em 21 de agosto. Segundo o Brasil de Fato, a ligação durou cerca de 1 hora e 20 minutos e, na ocasião, o presidente brasileiro argumentou que as barreiras tarifárias são infundadas. Horas depois, Greer procurou Márcio Elias Rosa para combinar a videoconferência.
Paralelamente, o Brasil mantém duas frentes formais de contestação. O país acionou a Organização Mundial do Comércio (OMC), sob o argumento de que a Casa Branca operou de maneira discriminatória, e notificou os Estados Unidos em 13 de agosto sobre a abertura de processo com base na Lei da Reciprocidade Econômica, de abril de 2025. A abertura desse processo não aplica retaliações de forma automática: exige análise prévia de impacto econômico.
Em nota, o governo brasileiro reiterou que “seguirá perseguindo um acordo equilibrado e mutuamente benéfico com os EUA, pautando-se sempre pelo respeito ao diálogo e à soberania nacional”.