O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na noite desta quinta-feira (30) que o Conselho da Paz criado por seu governo fechou um acordo para o "desarmamento completo do Hamas e de todos os demais grupos armados" na Faixa de Gaza. O anúncio foi publicado na rede Truth Social e divulgado pelas agências internacionais já na madrugada desta sexta-feira (31), horário de Brasília.
Segundo o texto de Trump, reproduzido pela AFP e pela BBC, o desarmamento será feito por etapas e destravará a saída das tropas israelenses do território. "À medida que o desarmamento for concluído, as forças israelenses se retirarão, e a Força Internacional de Estabilização trabalhará com uma nova força policial palestina para assumir a responsabilidade por Gaza", escreveu o presidente americano, que agradeceu aos mediadores do Egito, do Catar e da Turquia.
O anúncio trata da segunda fase do cessar-fogo intermediado por Washington, que entrou em vigor em outubro do ano passado e vinha travado justamente no ponto das armas e da reconstrução de Gaza.
O que dizem as partes
As versões sobre a adesão dos envolvidos divergem. Dois altos dirigentes do Hamas disseram à AFP, sob condição de anonimato, que o grupo chegou a um acordo que inclui a entrega das armas e a retirada gradual das forças israelenses, e afirmaram esperar que os mediadores garantam o cumprimento por parte de Israel. Um dirigente do grupo também declarou à BBC que o plano foi aceito e que um comunicado oficial sairia em breve.
Já a agência Associated Press, em despacho publicado à 1h20 (horário de Nova York), registrou que nem o Hamas nem Israel haviam dado indicação imediata de que concordaram com os termos.
Do lado israelense, o governo não se pronunciou oficialmente. O jornal Times of Israel, citado pela BBC, informou que uma autoridade israelense distribuiu um comunicado afirmando que a proposta de desarmamento não atendia às exigências de Jerusalém. Israel vinha exigindo o desarmamento completo antes de qualquer avanço no roteiro.
Como o plano funcionaria
A BBC afirma ter obtido o texto do roteiro, de quatro páginas, que amarra cada etapa do desarmamento a uma retirada militar israelense correspondente — um desenho que autoridades americanas descreveram como construído sobre desconfiança mútua e mecanismos de verificação, sem que nenhum dos lados avance antes de o outro cumprir sua parte.
Pela sequência descrita à AP por autoridades dos EUA e do Conselho da Paz, que falaram sob anonimato, a polícia de Gaza deve entregar armas à administração tecnocrática nas próximas duas semanas. Essa etapa, porém, não inclui a maioria dos militantes do Hamas nem o armamento pesado: a entrega de armas pesadas e a desativação da rede de túneis viriam depois, num processo que um integrante do Conselho da Paz estimou entre 200 e 350 dias. Nenhum prazo específico foi apresentado para o desarmamento do Hamas ou da Jihad Islâmica Palestina.
Segundo uma fonte diplomática ouvida pela AFP, as armas devem ser entregues ao Comitê Nacional para a Administração de Gaza, órgão de tecnocratas palestinos hoje sediado no Egito e que, de acordo com veículos egípcios e palestinos, está impedido por Israel de entrar na Faixa. O Cairo deve sediar em breve uma reunião entre os mediadores para discutir a implementação, informou o veículo estatal egípcio Al Qahera News.
Relembre o caso
A guerra começou após o ataque do Hamas contra o sul de Israel em 7 de outubro de 2023. A AP registra cerca de 1.200 mortos; a AFP, 1.221, com base em dados oficiais israelenses. Em ambos os levantamentos, 251 pessoas foram levadas como reféns.
A ofensiva israelense em Gaza matou mais de 73 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde administrado pelo Hamas — número considerado confiável pela ONU e que inclui 21.280 crianças, de acordo com a BBC. A AP afirma que Israel controla mais da metade do território; a AFP fala em mais de 60%. Mesmo sob cessar-fogo, bombardeios israelenses mataram ao menos quatro pessoas em Gaza na quinta-feira, segundo autoridades locais de saúde.
No início de julho, o Hamas dissolveu o comitê que administrava os assuntos civis da Faixa desde 2007 e escolheu Khalil al-Hayya como novo líder, no lugar de Yahya Sinwar, morto em ataque israelense em outubro de 2024.