A missão BepiColombo, operada em conjunto pela Agência Espacial Europeia (ESA) e pela Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA), entrou na fase de chegada a Mercúrio. A etapa começou na quinta-feira (3), com a separação do módulo que impulsionou a espaçonave durante quase oito anos de viagem pelo Sistema Solar.
Segundo a ESA, o Mercury Transfer Module (MTM) se desprendeu do conjunto formado pelos dois orbitadores científicos a mais de 200 milhões de quilômetros da Terra. A confirmação chegou às 15h52 no horário da Europa Central (10h52 em Brasília), por meio de duas antenas de espaço profundo da rede Estrack, em Cebreros (Espanha) e em Malargüe (Argentina).
A agência informou que a telemetria indica todos os sistemas em condição nominal e que os painéis solares do orbitador europeu já carregam as baterias da espaçonave.
Antes da confirmação definitiva, o controle da missão havia detectado um sinal Doppler preliminar compatível com a sequência planejada. A ESA explica que o Doppler é a variação na frequência do rádio entre a Terra e a nave — o mesmo princípio que faz o som da sirene de uma ambulância mudar de tom conforme ela se aproxima ou se afasta.
A própria agência destaca a dificuldade da manobra: executar uma separação crítica a mais de 200 milhões de quilômetros de distância exige planejamento, navegação e comandos precisos, sem qualquer possibilidade de intervenção em tempo real.
Lançada em outubro de 2018, a BepiColombo já percorreu mais de 10 bilhões de quilômetros, segundo a Exame. Chegar a Mercúrio é considerado um dos maiores desafios da engenharia espacial: por estar muito próximo do Sol, o planeta obriga qualquer sonda a se desfazer de uma enorme quantidade de energia orbital para conseguir acompanhá-lo.
Para vencer esse obstáculo, a missão combinou propulsão elétrica solar e nove sobrevoos planetários, que foram ajustando a trajetória aos poucos. Em junho, a ESA desligou em definitivo os propulsores elétricos do módulo de transferência, preparando a nave para a etapa atual.
A separação do MTM é apenas o primeiro passo. De acordo com a ESA, o conjunto restante deve entrar em órbita de Mercúrio em 21 de novembro de 2026. Os dois orbitadores — o europeu Mercury Planetary Orbiter (MPO) e o japonês Mio (Mercury Magnetospheric Orbiter) — vão se separar entre os dias 9 e 10 de dezembro. Até lá, é o MPO que fornece energia ao conjunto.
As observações científicas só devem começar em abril de 2027. Será a primeira vez que dois veículos orbitam Mercúrio ao mesmo tempo: o MPO vai se concentrar na superfície e na composição do planeta, enquanto o Mio investigará o ambiente magnético e espacial ao redor dele.
Mercúrio segue como um dos planetas menos explorados do Sistema Solar. Até agora, apenas duas missões da Nasa fizeram estudos aproximados: a Mariner 10, na década de 1970, e a Messenger.
Entre os alvos da BepiColombo estão as chamadas "hollows", depressões encontradas na superfície do planeta, além do campo magnético e da exosfera. A missão também deve investigar por que Mercúrio tem densidade tão elevada. Uma das hipóteses, citada pela Exame, é a de que uma colisão gigantesca no início da história do Sistema Solar tenha removido parte de suas camadas externas.
Os dados coletados pelos dois orbitadores devem ajudar a testar essa e outras explicações sobre a formação e a evolução do planeta.