As apostas esportivas e os cassinos online, as chamadas "bets", geram um custo de R$ 30,6 bilhões por ano ao Sistema Único de Saúde (SUS), segundo estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) divulgado nesta semana e repercutido pela Agência Brasil nesta sexta-feira (19).
O valor engloba gastos do sistema público com tratamentos de depressão, ansiedade e mortes por suicídio associadas a apostas online, de acordo com o levantamento. Apesar do tamanho do problema, apenas 1% de tudo o que as operadoras arrecadam no país é hoje destinado ao Ministério da Saúde.
Segundo a Agência Brasil, a procura por atendimento ligado a apostas na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), porta de entrada do SUS para questões de saúde mental, cresceu 140% nos últimos cinco anos.
Para tentar dar conta do aumento na demanda, o Ministério da Saúde criou em fevereiro deste ano um canal eletrônico específico para atendimento a pessoas com problemas relacionados a apostas. "Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos", afirmou à Agência Brasil o diretor de Saúde Mental da pasta, Marcelo Kimati.
De acordo com Kimati, cerca de 20 mil pessoas já se cadastraram no serviço, que aplica um teste de dependência a apostas. A capacidade de atendimento, feita em parceria com a Agência para o Desenvolvimento do SUS (AgSUS), passou de 600 para até 100 mil teleatendimentos por mês.
A reportagem da Agência Brasil também traz os números da plataforma de autoexclusão de apostas, administrada pelo Ministério da Fazenda: mais de 5 milhões de CPFs já foram bloqueados em sites de apostas autorizados a operar no Brasil, e mais de 1 milhão de usuários pediram para se autoexcluir das plataformas. Quase metade desse grupo citou motivos ligados à saúde mental para a decisão.
Um dos relatos ouvidos pela reportagem é o do vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, morador de Lages (SC). Ele começou a apostar aos 18 anos e perdeu R$ 500 mil em seis anos de jogo. Há dois meses, recorreu à autoexclusão. "Essa ferramenta salvou minha vida", disse.
Já Carla Xavier, de 41 anos, identificada como jogadora compulsiva, destacou o papel da rede de apoio na recuperação. "Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil", afirmou.
Quem enfrenta problemas relacionados a apostas pode buscar apoio em grupos como a Irmandade dos Jogadores Anônimos e o Jog-Anon, voltado a familiares de apostadores, além do Centro de Valorização da Vida (CVV), pelo telefone 188.
O tema chega em um momento de pressão crescente sobre o setor de apostas no Brasil. Nas últimas semanas, o governo Lula e parlamentares vêm discutindo medidas mais duras para as bets, incluindo restrições à publicidade e mudanças na tributação das operadoras, à medida que crescem as evidências do impacto do setor sobre a saúde pública e as finanças das famílias brasileiras.