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Todo ser vivo emite um brilho invisível; ciência quer usá-lo

Reportagem publicada nesta terça pela revista Nature reúne o que se sabe sobre os biofótons — luz fraca demais para o olho humano, produzida pelo metabolismo das células, que pesquisadores testam como marcador precoce de doença

Redação Apuramos

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Todo ser vivo emite um brilho invisível; ciência quer usá-lo
Yassine Khalfalli/Unsplash — imagem ilustrativa

Plantas, bactérias, camundongos e seres humanos emitem continuamente uma luz fraquíssima, invisível a olho nu, gerada pelo próprio metabolismo das células. O fenômeno, conhecido como biofóton ou emissão ultrafraca de fótons, é o tema de uma reportagem especial publicada nesta terça-feira (28) pela revista científica Nature, assinada pela jornalista Jo Marchant (Nature 655, 1116-1119).

A intensidade dessa luz é da ordem de dezenas a centenas de fótons por centímetro quadrado por segundo — pouco abaixo do limite da visão humana adaptada ao escuro, segundo a Nature. Ela cobre desde o ultravioleta até o infravermelho próximo e não se confunde nem com a radiação térmica, emitida por qualquer superfície, nem com a bioluminescência bem mais forte de vaga-lumes e águas-vivas.

A imagem que virou marco

Em 2025, o físico quântico Daniel Oblak, da Universidade de Calgary (Canadá), e colegas colocaram quatro camundongos anestesiados numa câmara escura e apontaram uma câmera sensível para eles. O equipamento registrou um brilho fantasmagórico no formato dos animais. Ao fim do experimento, os camundongos foram mortos e reposicionados na câmara: o brilho havia praticamente desaparecido. "Foi um momento decisivo", disse Oblak à Nature. O trabalho foi publicado no periódico The Journal of Physical Chemistry Letters.

De onde vem a luz

Os biofótons nascem do metabolismo aeróbico, principalmente nas mitocôndrias. Durante essas reações, compostos derivados do oxigênio — as espécies reativas de oxigênio — geram moléculas em estado "excitado" que, ao voltarem a arranjos estáveis, liberam energia em forma de fóton. O oxigênio no estado singleto emite luz vermelha; grupos carbonila excitados brilham na faixa azul-esverdeada.

Como essas mesmas substâncias atuam na resposta celular a estresse, infecção ou ferimento, a emissão aumenta quando a célula sofre. Em experimentos ainda não publicados, Oblak e o físico teórico Christoph Simon fizeram pequenos cortes em folhas de cheflera e observaram um pico de emissão no local, que depois se espalhou em anel.

Promessa e ceticismo

Vários grupos investigam se o brilho serve para detectar doença precocemente. Uma equipe liderada por Maurizio Benfatto, do Instituto Nacional de Física Nuclear da Itália, relatou padrões diferentes de emissão entre astrócitos saudáveis e células de glioblastoma. Nirosha Murugan, da Universidade Wilfrid Laurier (Canadá), encontrou diferença semelhante entre células de pele saudáveis e de melanoma e agora recruta voluntários para testar se a contagem de fótons distingue pintas benignas de melanomas sem biópsia.

Nem todos se convencem. "Tenho dificuldade em enxergar um diagnóstico clínico. O sinal é fraco demais", disse à Nature Brian Wilson, biofísico médico da Universidade de Toronto. O objetivo original do estudo com camundongos era detectar tumores sob a pele — e não houve sinal conclusivo.

O peso do passado

O campo carrega um histórico que afastou pesquisadores. Nos anos 1920, o biólogo russo Alexander Gurwitsch propôs que raízes de cebola se comunicavam por luz ultravioleta; o efeito era difícil de reproduzir. Entre 1970 e os anos 2000, o alemão Fritz-Albert Popp — que cunhou o termo biofóton — sustentou que essas emissões seriam coerentes como um laser e chegou a associá-las a homeopatia e acupuntura, o que empurrou o assunto para a fronteira da pseudociência. Michal Cifra, da Academia Tcheca de Ciências, afirma à Nature que não há evidência dessa coerência quântica, mas defende que o fenômeno merece estudo rigoroso. "É um daqueles campos que parecem estar na beira da respeitabilidade", disse Nick Lane, do University College London. "Isso não significa que esteja errado."

Vale registrar que se trata de pesquisa em estágio inicial: não existe hoje exame clínico disponível baseado em biofótons. Este texto é informativo e não substitui orientação profissional de saúde.

Fontes consultadas nesta apuração

  • biofótons
  • Nature
  • ciência
  • biofísica
  • mitocôndrias
  • pesquisa
  • luz

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