A bolsa da Coreia do Sul teve nesta terça-feira (28) um de seus piores pregões da história. O índice Kospi despencou 10,84%, aos 6.023,66 pontos — a quarta maior queda percentual já registrada pelo indicador, segundo o site especializado TechTimes. A agência AFP descreveu a sessão como um colapso puxado pelas ações de tecnologia. O estopim foi a confirmação de que a China começou a produzir em massa suas próprias máquinas de litografia, o equipamento mais crítico da fabricação de chips, somada à estreia bilionária da fabricante de memórias CXMT na bolsa de Xangai.
A Samsung Electronics fechou em queda de mais de 13%, a pior baixa diária da empresa em quase 20 anos, e a SK Hynix recuou mais de 14%, de acordo com o TechTimes. Juntas, as duas respondem por cerca de metade do peso do Kospi. A bolsa de Seul chegou a acionar o circuit breaker, com paralisação de 20 minutos — o oitavo do ano —, e a queda apagou aproximadamente US$ 270 bilhões em valor de mercado das ações sul-coreanas, ainda segundo o site. O contágio se espalhou pela Ásia: o Nikkei, do Japão, caiu 3,95%, com tombo de mais de 18% da fabricante de memórias Kioxia.
O que a China anunciou
A agência Reuters apurou nesta terça, com uma fonte a par do assunto, que a estatal Shanghai Aishengna Electronic Technology Group lidera a produção em massa de máquinas de litografia DUV (ultravioleta profundo) de imersão desenvolvidas na própria China. O site The Information havia revelado o programa na segunda-feira (27): cerca de cinco máquinas devem ficar prontas este ano e aproximadamente 20 em 2027, com entregas previstas às fabricantes chinesas SMIC, Hua Hong e CXMT.
Segundo a Reuters, a Aishengna foi fundada em agosto de 2023, tem capital registrado de 7 bilhões de yuans (cerca de US$ 1 bilhão), dois acionistas estatais e nem sequer mantém um site. A empresa absorveu equipes da startup Yuliangsheng — afiliada à SiCarrier, ligada à Huawei — e da SMEE, as principais apostas chinesas em litografia.
Por que isso derrubou o mercado
Máquinas DUV de imersão usam uma película de água entre a lente e o wafer de silício para imprimir circuitos mais finos. Elas produzem chips da classe de 28 nanômetros em uma única exposição e, com a técnica de multipadronagem, chegam à classe de 7 nm, explica o Tom's Hardware. Como os controles de exportação dos EUA e da Holanda já vetam à China as máquinas EUV mais avançadas da ASML, o DUV de imersão era o último gargalo de equipamento — e agora Pequim passa a ter uma fonte doméstica, reduzindo o alcance das sanções ocidentais.
As ações da ASML caíram 8% na segunda-feira com a reportagem do The Information e recuavam mais 1,6% na manhã desta terça, segundo a Reuters.
CXMT e o medo de sobreoferta
Um dia antes do tombo, a CXMT, maior fabricante chinesa de memórias DRAM, estreou na bolsa de Xangai com alta de 466%, após captar cerca de US$ 8,6 bilhões — por alguns momentos, tornou-se a empresa mais valiosa listada na China continental, segundo o TechTimes. Para investidores em Seul, o caixa bilionário destinado a ampliar capacidade acendeu o alerta de sobreoferta de memória, justamente o coração do lucro de Samsung e SK Hynix.
O outro lado
Procuradas pela Reuters, ASML, SMIC, Hua Hong e CXMT não responderam aos pedidos de comentário. Analistas do JP Morgan ponderaram, em nota citada pela agência, que "produzir um punhado de ferramentas DUV de imersão não é o mesmo que produzir ferramentas que possam ser usadas em manufatura de alto volume, onde rendimento, sobreposição, produtividade e confiabilidade são o que importa".
As máquinas chinesas ainda exigem mais testes e seguem distantes das concorrentes da ASML, que planeja entregar cerca de 130 sistemas de imersão só em 2026, segundo o Tom's Hardware. Nas memórias HBM usadas em inteligência artificial, as coreanas permanecem uma a duas gerações à frente. Os mercados agora aguardam as decisões de juros do Federal Reserve, do Banco do Japão e do Banco da Inglaterra nesta semana, que devem ditar o apetite por risco no setor.