O Canal do Panamá começou a cortar o número de navios que cruzam a via nesta sexta-feira (4), em uma manobra para poupar água diante da seca provocada pelo El Niño. A hidrovia que liga o Atlântico ao Pacífico e concentra cerca de 5% do comércio marítimo global passou a operar com 34 travessias diárias e chegará ao teto de 32 a partir de 15 de setembro.
Segundo comunicado da Autoridade do Canal do Panamá (ACP) distribuído pela agência AFP e publicado pelo Estado de Minas, o plano prevê uma redução gradual de 36 para 32 travessias por dia. O canal opera com água de chuva armazenada nos lagos artificiais de Gatún e Alhajuela, cujos níveis caíram com a estiagem. A ACP afirmou que as chuvas ficaram "menores do que o esperado" na bacia hidrográfica do canal, o que exigiu "medidas adicionais" para garantir a sustentabilidade da operação no longo prazo.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Entre maio e agosto, a chuva na bacia ficou 34% abaixo da média histórica, informou a ACP à Al Jazeera. E a tendência é de piora: a Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou nesta semana que o El Niño de 2026 deve se tornar um episódio muito forte, com probabilidade próxima de 100% de persistir até fevereiro de 2027. "O El Niño está adquirindo uma magnitude extraordinária diante dos nossos olhos", afirmou o secretário-geral da ONU, António Guterres, segundo a Notícias ONU.
Calado menor a partir de outubro
Além do corte de travessias, a ACP já vinha limitando o calado — a profundidade que o casco atinge na água. A partir de 1º de outubro, o limite cai para 14,48 metros, ante os 15,24 metros iniciais. Quanto menor o calado, menos água a embarcação desloca nas eclusas.
Não é a primeira vez. Em 2023, outro El Niño obrigou o canal a reduzir os trânsitos diários de 38 para 22, com os lagos em níveis recordes de baixa. A ACP não descarta novas restrições, a depender do volume de chuvas nas próximas semanas.
Crise de Ormuz empurra mais navios para o Panamá
O aperto chega em um momento de demanda excepcional. Com as exportações do Golfo travadas pela crise no Estreito de Ormuz, compradores da Ásia e da Europa passaram a buscar petróleo nas Américas, o que aumentou o tráfego pela rota panamenha. De acordo com a Al Jazeera, as exportações de petróleo dos Estados Unidos saltaram 46% na comparação anual e bateram recorde de 61,6 milhões de toneladas no segundo trimestre de 2026, conforme dados da consultoria de inteligência comercial Kpler. Brasil, Argentina e Guiana também registraram embarques recordes de óleo em 2026.
O resultado é uma disputa por vagas de passagem. A ACP informou que o preço médio dos leilões de travessia, de US$ 55 mil entre outubro do ano passado e fevereiro deste ano, triplicou com a alta recente da demanda. Em 1º de setembro, um navio sul-coreano pagou o valor recorde de US$ 5,3 milhões para cruzar o canal, segundo a Bloomberg News, em informação reproduzida pela Al Jazeera.
Efeito nos preços deve durar meses
Para Niels Rasmussen, analista-chefe de transporte marítimo do Bimco, associação internacional do setor, as novas restrições devem empurrar parte da frota para rotas mais longas e caras, como o contorno pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. "A redução da capacidade de carga, combinada com preços mais altos nos leilões de vagas de trânsito, provavelmente vai empurrar os fretes para cima", disse ele à Al Jazeera.
Os segmentos mais expostos, acrescentou, são os contêineres que saem da Ásia para a costa leste dos EUA e as exportações de gás liquefeito de petróleo do Golfo americano para a Ásia e para as costas oeste da América Central e do Sul. Cerca de 70% da carga que passa pelo canal tem origem ou destino nos Estados Unidos, de acordo com a ACP.
Peter Sand, analista-chefe da plataforma de inteligência marítima Xeneta, avaliou ao mesmo veículo que o impacto deve se estender pelos próximos seis a nove meses. Ele descreveu a situação como uma crise de combustão lenta, que tende a se agravar ao longo de 2027.