Microsoft, Meta, Apple e Amazon divulgam seus resultados trimestrais entre a quarta-feira (29) e a quinta-feira (30), e as quatro chegam à prestação de contas com um problema em comum: a escassez mundial de chips de memória provocada pela corrida por data centers de inteligência artificial. Em análise publicada nesta segunda-feira (27), o site americano Tech Times sustenta que praticamente todas as dúvidas dos investidores sobre os quatro balanços remetem ao mesmo gargalo físico — as linhas de produção de memória de alta largura de banda (HBM) da Samsung, da SK Hynix e da Micron.
Por que a memória virou o centro do problema
A HBM é o tipo de chip empilhado que fica acoplado às placas aceleradoras usadas em treinamento e operação de modelos de IA. Segundo o Tech Times, ela rende de três a cinco vezes mais receita por lâmina de silício do que a DRAM comum, o que dá às fabricantes um motivo econômico para manter as linhas voltadas aos clientes de data center — e não aos fabricantes de celular e computador, que pagam preço de mercadoria. O resultado é uma disputa pelas mesmas fábricas.
Para Microsoft e Meta, isso aparece na conta de investimento. A Microsoft projeta cerca de US$ 190 bilhões em investimentos em 2026, alta de 61% sobre 2025, dos quais aproximadamente US$ 25 bilhões são atribuídos ao encarecimento dos componentes de memória, informa o Tech Times. A Meta elevou em abril sua projeção anual para a faixa de US$ 125 bilhões a US$ 145 bilhões, e a ação caiu cerca de 10% no pregão seguinte ao anúncio.
O precedente que assustou o mercado veio da Alphabet, que reportou na semana passada: a dona do Google elevou a projeção de investimento de 2026 para até US$ 205 bilhões e teve fluxo de caixa livre negativo pela primeira vez desde que abriu capital. Mesmo com a receita da nuvem crescendo 82% no comparativo anual, para US$ 24,8 bilhões, a ação recuou mais de 6% na manhã seguinte.
O outro lado da mesma escassez: o consumidor
A Apple sente o efeito pelo lado oposto — o do custo de produção. De acordo com estimativa da consultoria TechInsights citada pelo Tech Times, o pacote de 12 GB de DRAM que custava cerca de US$ 39 por unidade no iPhone 17 Pro deve sair por aproximadamente US$ 145 no iPhone 18 Pro, alta de 272% para a mesma configuração. O armazenamento NAND de 256 GB teria passado de cerca de US$ 13 para perto de US$ 51.
Em entrevista ao Wall Street Journal em junho, o presidente-executivo da Apple, Tim Cook, classificou a situação como uma "enchente de cem anos" e disse que aumentos de preço nos próximos iPhones eram inevitáveis. Em 25 de junho, a empresa já havia reajustado as linhas Mac e iPad em até US$ 300. O balanço de quinta-feira será o último com Cook no comando: em 1º de setembro, John Ternus assume como CEO.
Do lado da indústria de memória, a TrendForce projetou em 9 de julho que os preços de contrato da DRAM para servidores devem subir entre 13% e 18% no terceiro trimestre, com o mercado ainda subofertado. A consultoria já prevê falta de DRAM de servidor em 2027, com a oferta de bits de módulos RDIMM crescendo apenas 15% a 20% no ano.
O efeito no Brasil
A Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee) divulgou relatório apontando que o preço final dos eletrônicos pode ficar até 30% mais caro para o consumidor brasileiro por causa da alta dos insumos, conforme reportou o Olhar Digital. Pelo levantamento da entidade, 47% das fabricantes relataram aumento de custos com hardware e matéria-prima, e os reajustes de insumos podem chegar a 100% ao longo do tempo. O Tecnoblog publicou projeção da Samsung de que eletrônicos vendidos no país fiquem até 20% mais caros.
O que ainda não se sabe
Os números citados são projeções de analistas e de casas de pesquisa. As quatro empresas só comentam oficialmente seus resultados na divulgação dos balanços, a partir de quarta-feira. O preço do iPhone 18 também só deve ser confirmado no evento de lançamento previsto para o segundo semestre.