A economia da Argentina desacelerou de forma mais acentuada do que o previsto no segundo trimestre de 2026, ameaçando os planos do presidente Javier Milei de disputar a reeleição em outubro de 2027. Segundo a Bloomberg Línea, o Produto Interno Bruto (PIB) do país recuou 0,6% na comparação trimestral, mesmo com o crescimento de 2% na comparação anual, puxado pelos setores de energia e agronegócio.
O governo já revisou para baixo sua projeção de crescimento para 2026, de 5% para 3%, patamar considerado otimista por economistas independentes, que projetam expansão de cerca de 2% no ano. O ministro da Economia, Luis Caputo, tentou minimizar o cenário e afirmou que 13 dos 16 setores da economia registraram crescimento no primeiro semestre.
Apesar do discurso oficial, analistas veem sinais de fragilidade adiante. Fernando Marull, da consultoria FM&A, projeta uma possível segunda contração trimestral consecutiva no terceiro trimestre. Já Carlos Melconian, da MacroView, avalia que a situação econômica "será extremamente apertada" nos próximos meses.
O consumo interno também recuou, com queda de 2,4% no segundo trimestre, enquanto a inadimplência no crédito ao consumidor dispara. Desde a posse de Milei, 246,3 mil postos de trabalho foram perdidos e mais de 30 mil empresas fecharam as portas, de acordo com os dados citados pela Bloomberg Línea.
O câmbio soma pressão ao quadro. O peso argentino se desvalorizou 3,7% frente ao dólar até agosto, enquanto os preços ao consumidor subiram 21% no mesmo período. A inflação anual, hoje em 34%, está bem abaixo dos mais de 200% registrados quando Milei assumiu o governo, mas ainda distante da meta oficial de menos de 1% ao mês.
O desgaste econômico já aparece nas pesquisas de opinião. Um levantamento do instituto AtlasIntel mostra que a aprovação de Milei caiu para 38%, contra 58% de desaprovação. Cerca de 70% dos entrevistados afirmam estar preocupados com o mercado de trabalho.
A oposição já explora o momento. O governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, classificou o plano econômico do governo federal como uma "política criminosa e suicida de desindustrialização". Para Jimena Zuniga, da Bloomberg Economics, os números positivos divulgados pelo governo "não são nem de longe convincentes o suficiente para dissipar as preocupações políticas".
Com a eleição presidencial marcada para outubro de 2027, o economista Osvaldo Giordano, do instituto IERAL, resume o clima entre os argentinos: "a paciência está menor". O desfecho da disputa entre o discurso oficial de recuperação e os sinais de desaceleração deve pesar diretamente na campanha de Milei pela reeleição.