Um estágio superior descartado de um foguete Falcon 9, da SpaceX, deveria ter colidido com a superfície da Lua na madrugada desta quarta-feira (5), por volta das 3h35 no horário de Brasília. Até o início da manhã, porém, nenhum registro do impacto havia sido divulgado: o Olhar Digital, que acompanhou a expectativa com astrônomos brasileiros, publicou às 4h38 que "nenhum telescópio tinha flagrado essa colisão".
O horário e o local previstos
O astrônomo Bill Gray, responsável pelo site Project Pluto e o primeiro a identificar a rota de colisão, calculou o impacto para as 6h35min37,5s no horário universal — 3h35 em Brasília —, com margem de poucos segundos. Segundo ele, o ponto atingido fica próximo à cratera Einstein, na borda oeste da face visível da Lua, em uma região iluminada pelo Sol.
A velocidade estimada é de 2,43 km/s. Project Pluto, EarthSky, a BBC News Brasil e a Veja converteram o número para cerca de 8.700 km/h; a CNN Brasil trabalhou com quase 8.750 km/h. Como a Lua praticamente não tem atmosfera, nada freia o objeto antes do choque.
As estimativas para a cratera também variam. Gray projetou algo em torno de 17 metros de diâmetro. Já o estudo publicado no arXiv e citado pela CNN Brasil aponta de 20 a 30 metros, enquanto o Olhar Digital fala em aproximadamente 27 metros. A energia liberada foi calculada em 14,5 gigajoules por Gray e em 11,8 gigajoules pelo estudo.
De onde veio o estágio
O objeto tem a designação de catálogo 2025-010D e foi lançado em 15 de janeiro de 2025. Naquela missão, o Falcon 9 levou rumo à Lua dois módulos privados: o Blue Ghost-1, da americana Firefly Aerospace, e o Resilience, da japonesa ispace, da missão Hakuto-R. O primeiro pousou com sucesso; o segundo falhou na descida, em junho de 2025.
De acordo com o Olhar Digital, quase todo o combustível foi consumido para empurrar as sondas até a região lunar, o que impediu a SpaceX de comandar uma reentrada controlada na atmosfera terrestre. O estágio, com cerca de 4 toneladas e o tamanho de um prédio de cinco andares, ficou numa órbita alta que cruzava a trajetória da Lua. "Sem combustível suficiente para realizar uma manobra de descarte controlado, sua trajetória passou a ser moldada pelas complexas interações gravitacionais", explicou o astrônomo Marcelo Zurita ao portal.
Gray afirma que percebeu a rota de colisão ainda em setembro de 2025, mas preferiu aguardar dados adicionais antes de anunciar. A BBC News Brasil informou que o Centro de Estudos de Objetos Próximos à Terra (CNEOS) da Nasa confirmou a previsão. "Não há perigo para a Terra", disse o porta-voz Jimi Russell à emissora britânica.
O que dizem os cientistas
O clarão do impacto deve durar menos de um segundo e tende a ser ofuscado pelo brilho da superfície lunar, segundo o site Space.com. A aposta dos pesquisadores estava na pluma de poeira: um estudo da Universidade do Texas em Austin, liderado por William Jo e divulgado pelo EarthSky, prevê que o jato central de material ejetado alcance de 75 a 100 quilômetros de altitude.
O astrofísico Jonathan McDowell, citado pelo EarthSky, avaliou horas antes do evento que dados mais recentes deslocaram o ponto de impacto para trás da borda lunar, tornando a observação mais difícil do que se imaginava.
A confirmação deve vir do espaço. Conforme o Space.com, a sonda sul-coreana Danuri tentaria observar o choque em tempo real, e o Lunar Reconnaissance Orbiter (LRO), da Nasa, fotografará o local antes e depois para medir a nova cratera.
Impactos anteriores
Este seria o segundo impacto documentado de um foguete inativo com a Lua. Em 4 de março de 2022, o estágio superior de um Long March 3C chinês, da missão Chang'e 5-T1, abriu duas crateras de 16 e 18 metros no lado oculto do satélite, registradas depois pelo LRO. Antes disso, os terceiros estágios dos foguetes Saturno V das missões Apollo foram jogados de propósito contra a superfície.
Para o astrônomo Matt Bothwell, da Universidade de Cambridge, ouvido pela BBC, o episódio é também um alerta. "Acho que mais pessoas deveriam se preocupar com o lixo espacial", afirmou. Segundo a Agência Espacial Europeia, há cerca de 54 mil objetos com mais de 10 centímetros em órbita.