A França encara nesta terça-feira (28) o dia considerado mais arriscado no combate ao maior incêndio florestal de sua temporada recorde. Depois de uma madrugada descrita pelas autoridades como relativamente tranquila, sem avanço significativo das chamas que cercam Bordeaux, a agência meteorológica Météo-France prevê para hoje uma nova onda de calor, com temperaturas próximas de 40°C e ventos mais secos — combinação que, segundo as autoridades locais, pode reativar focos e anular a melhora das últimas horas, apurou a RFI.
O presidente Emmanuel Macron comanda na manhã desta terça uma nova reunião de crise dedicada aos incêndios, segundo o jornal The Irish Times. O fogo, que começou perto de Saumos, na região de Gironde, já destruiu cerca de 42 mil hectares — área equivalente a quatro vezes a cidade de Paris — e chegou a aproximadamente 15 quilômetros de Bordeaux, centro urbano de 265 mil habitantes.
A retirada preventiva de cerca de 220 mil moradores, além de trabalhadores de mais de 13 mil empresas, é considerada sem precedentes na França. Mais de 240 casas foram destruídas ou danificadas, e ao menos 75 bombeiros se feriram no combate — a contagem do Irish Times chega a 84. Mais de 2,5 mil bombeiros atuam na região, com apoio de aeronaves e militares. Até a manhã desta terça, não havia registro de mortes provocadas diretamente pelo incêndio florestal, segundo o IBTimes UK.
"Nuvens de fogo" e um luto à parte
A intensidade do incêndio gerou um fenômeno raro: nuvens do tipo pirocumulonimbus, as chamadas "nuvens de fogo", capazes de produzir ventos violentos e raios que acendem novos focos longe da zona original — o que torna o comportamento das chamas errático e dificulta o combate, segundo o IBTimes UK.
O país também lamenta a morte de dois bombeiros no dia 21, em um incêndio em um prédio perto do aeroporto de Bordeaux-Mérignac. A ocorrência foi separada do incêndio florestal, mas ampliou a pressão sobre os serviços de emergência, destaca o IBTimes UK.
Emergência nacional na Espanha
A Espanha decretou emergência nacional por causa dos incêndios que atingem as regiões de Madri e Ávila, informa o IBTimes UK. Uma pessoa morreu em Manises, perto de Valência. Na região de Madri, mais de 29 mil pessoas deixaram suas casas e outras 20 mil receberam ordem de confinamento; na província de Ávila, são mais de 25 mil evacuados e 8 mil confinados. As áreas queimadas nas três províncias do centro do país — Ávila, Madri e Toledo — já passam de 45 mil hectares, segundo o Irish Times.
Com a desaceleração das chamas perto de Madri, as autoridades espanholas começaram a planejar os primeiros retornos de moradores, apurou a RFI — caso do camping de El Escorial, de onde 4,5 mil pessoas haviam sido retiradas. O premiê Pedro Sánchez classificou os incêndios como "a expressão mais dolorosa de uma urgência climática" e disse que episódios dessa escala "já não são exceção". Segundo ele, o país já perdeu neste ano o equivalente a mais de 121 mil hectares, acima da média da última década.
Temporada recorde na Europa
Somados, França e Espanha já contabilizam mais de 300 mil pessoas fora de casa. Na França, são mais de 13,5 mil focos e mais de 116 mil hectares queimados em 2026 — a temporada mais destrutiva já registrada no país, que teve o junho mais quente de sua história e chuvas em torno da metade do nível normal, segundo o IBTimes UK. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, classificou a situação como excepcional, e o governo anunciou que as seguradoras vão cobrir até três semanas de hospedagem temporária para os desalojados, apurou a RFI.
Fora de Gironde, o incêndio de Biscarrosse, no departamento de Landes, destruiu cerca de 3,6 mil hectares e atingiu 198 edificações — 8 mil dos 30 mil retirados já puderam voltar para casa, segundo o prefeito Gilles Clavreul. No Var, o fogo é considerado controlado, e ainda há focos ativos na Córsega e nos Alpes franceses.