Irã ameaça responder a ataque da Ucrânia no Mar Cáspio
Chanceler Abbas Araghchi afirmou neste domingo que a ação de Kiev "não pode ficar sem resposta"; Zelensky confirmou ataques a navios com carga militar ligada a Teerã
Publicado em
Chanceler Abbas Araghchi afirmou neste domingo que a ação de Kiev "não pode ficar sem resposta"; Zelensky confirmou ataques a navios com carga militar ligada a Teerã
Publicado em
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou neste domingo (26) que o ataque atribuído à Ucrânia contra um navio comercial iraniano no Mar Cáspio "não pode ficar sem resposta". A declaração, publicada pelo chanceler na rede social X e reproduzida pelo jornal The New Arab, elevou o tom de Teerã um dia depois de o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, anunciar que suas forças haviam atingido embarcações na região.
"Zelensky atacou um navio comercial iraniano, matando um marinheiro", escreveu Araghchi, que classificou a ação como "uma violação flagrante da Carta da ONU feita a mando de Israel para arrastar a Europa para sua guerra". Segundo o chanceler, ele transmitiu a mensagem em conversas telefônicas com a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, e com o ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov.
A chancelaria iraniana informou no sábado (25) que a embarcação explodiu no Cáspio. As versões sobre o número de vítimas divergem: a Al Jazeera e a agência Reuters relatam um marinheiro morto e outro ferido, enquanto o comunicado do ministério citado pelo The New Arab fala em um morto e "vários feridos".
Ainda no sábado, o Ministério das Relações Exteriores convocou o encarregado de negócios da Ucrânia em Teerã para protestar contra o que descreveu como um ato "hostil e criminoso", segundo a agência estatal IRNA. O órgão classificou o episódio como violação do Artigo 2º (4) da Carta da ONU e disse que o ataque pode ampliar a guerra entre Rússia e Ucrânia. Em nota, reiterou que o país "nunca interveio" naquele conflito.
De acordo com a Al Jazeera, Araghchi pediu a Kallas uma "resposta firme" do Conselho de Segurança da ONU, da União Europeia e da comunidade internacional, além de responsabilização dos autores e dos países que apoiam Kiev.
Zelensky não confirmou ter atingido o navio citado por Teerã. Em publicação no X no sábado, disse que as forças ucranianas obtiveram "resultados muito fortes" com ataques de longo alcance no Mar Cáspio, contra "embarcações usadas em transportes de carga militar envolvendo o Irã, além de um navio de guerra". Os serviços de inteligência ucranianos informaram no Telegram que os alvos foram cargueiros sob sanções internacionais empregados no transporte de material militar entre Irã e Rússia, segundo o The New Arab.
No mesmo dia, o presidente ucraniano acusou Moscou de repassar a Teerã imagens de satélite de Estados do Golfo e de instalações militares americanas na região. Ele afirmou ter identificado "uma correlação clara" entre esse monitoramento e ataques iranianos posteriores, e citou o rastreamento de quatro bases aéreas nos dias 19 e 20 de julho — duas no Bahrein, uma na Jordânia e uma no Kuwait. Zelensky disse que compartilhará as informações com parceiros internacionais.
O Mar Cáspio era considerado uma das rotas marítimas mais seguras do Irã, avaliou a Al Jazeera. O episódio ocorre enquanto o país enfrenta pressão no litoral sul, onde os Estados Unidos mantêm um bloqueio naval na região do Estreito de Ormuz, e em meio a ataques de rebeldes houthis à navegação no Mar Vermelho.
Ao canal, o correspondente Resul Serdar Atas, de Teerã, afirmou que o fato de o Cáspio deixar de ser seguro para o comércio é "uma preocupação enorme" para os iranianos. Analistas ouvidos pela emissora avaliam que o ataque pode ser uma tentativa de aumentar a pressão econômica sobre o governo iraniano.
O incidente acontece durante uma pausa nos bombardeios americanos contra o Irã, interrompidos após 13 noites consecutivas. O porta-voz da chancelaria iraniana, Esmaeil Baghaei, disse no domingo que há esforços de mediação em curso, sem dar detalhes. Segundo o site Axios, citado pela Al Jazeera, mediadores como Catar, Egito e Paquistão apresentaram a Washington e Teerã uma proposta de trégua de dez dias para retomar negociações.
As relações entre Irã e Ucrânia se deterioraram desde 2022, quando Teerã passou a fornecer drones Shahed à Rússia. Kiev afirma ter abatido mais de 44 mil aparelhos de projeto iraniano desde o início da invasão russa. Até a publicação desta reportagem, o Irã não havia detalhado que tipo de resposta pretende adotar.