Apuramos.

Lemos todas as fontes. Você decide.

Sobre
Política

Itamaraty chama embaixador na Argentina após ataques de Milei

Julio Bitelli foi convocado a voltar a Brasília neste domingo (26); presidente argentino chamou Lula de "presidiário" e Moraes de "lixo careca" em convenção do PL

Publicado em

Itamaraty chama embaixador na Argentina após ataques de Milei
Fabian Lozano/Unsplash — imagem ilustrativa

O Ministério das Relações Exteriores chamou de volta a Brasília, neste domingo (26), o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli. A decisão é uma reação ao discurso do presidente argentino, Javier Milei, na convenção do Partido Liberal (PL) que oficializou no sábado (25), em São Paulo, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Chamar um embaixador para consultas é, na prática diplomática, uma das formas mais duras de protesto formal entre dois países — sinal de descontentamento e de gravidade na relação bilateral, como registraram a Gazeta do Povo e a Agência Brasil. Segundo o jornal argentino La Nación, a determinação partiu do chanceler Mauro Vieira, e fontes da diplomacia brasileira classificaram o discurso de Milei como "inaudito". A Agência Brasil informou que Bitelli deve desembarcar na capital federal entre a noite deste domingo e a madrugada de segunda-feira (27).

O que Milei disse no Pacaembu

No estádio do Pacaembu, Milei se referiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva como "presidiário" e "ladrão" — o La Nación registra ainda o uso de "zurdo" (esquerdista, em tom pejorativo). O alvo seguinte foi o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, chamado de "lixo careca" por ter negado ao argentino autorização para visitar Jair Bolsonaro.

"O lixo careca não me permitiu visitar meu amigo injustamente preso, embora eu saiba que Lula recebia constantemente líderes estrangeiros enquanto estava na cadeia, inclusive aquele ex-presidente argentino desastroso, Alberto Fernández", disse Milei, em trecho reproduzido por O TEMPO.

Ao endossar o nome de Flávio, afirmou, segundo a Gazeta do Povo: "Confiamos em você, Flávio, para parar com essa palhaçada socialista!".

Moraes havia suspendido por 30 dias todas as visitas a Bolsonaro e, dias depois, negado o pedido específico de Milei. O ex-presidente cumpre prisão domiciliar após ser condenado a 27 anos e 3 meses por liderar tentativa de golpe de Estado. Foi a terceira passagem de Milei pelo Brasil desde que assumiu o governo argentino, sem nenhum contato com autoridades do Executivo brasileiro, observou o La Nación.

A reação em Brasília

Ainda no sábado, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, divulgou nota oficial. "Trata-se de referência desrespeitosa a magistrado da mais alta Corte do País, feita em solo brasileiro, por ato jurisdicional praticado conforme a Constituição e as leis da República Federativa do Brasil", escreveu, acrescentando que a Presidência do tribunal "deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados".

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou ser "inadmissível que um chefe de Estado estrangeiro venha ao nosso país e se dirija em termos desrespeitosos aos seus poderes constituídos", conforme o La Nación. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, publicou crítica ao modelo econômico argentino em suas redes.

O outro lado

Milei não recuou. Em entrevista à Rádio Mitre neste domingo, ele acusou o governo brasileiro de bancar uma campanha "anti-Argentina" durante a eleição de 2023 em seu país. "Vocês sabem quem investiu mais dinheiro nessa campanha anti-Argentina? O governo brasileiro. 25% dos recursos vieram do governo brasileiro", disse, segundo a Gazeta do Povo. Ele citou também México e o Partido Democrata dos Estados Unidos como supostos financiadores e voltou a atacar a decisão de Moraes: "Eu queria ir ver meu amigo Jair Bolsonaro. Não me deixaram. Aqui, porém, o ex-presidiário veio cumprimentar o prisioneiro" — referência à visita que Lula fez à ex-presidente argentina Cristina Kirchner, também em prisão domiciliar. O Apuramos não localizou, nas reportagens consultadas, manifestação oficial da Casa Rosada especificamente sobre a convocação do embaixador brasileiro.

Do lado argentino, houve crítica interna: o governador da província de Buenos Aires, o peronista Axel Kicillof, adversário de Milei, disse ter procurado o Itamaraty e afirmou ter assistido ao discurso com "profunda vergonha".

Precedente recente

Não é a primeira vez que uma fala de Milei provoca esse tipo de resposta. Em maio de 2024, a Espanha retirou temporariamente sua embaixadora em Buenos Aires depois que o argentino chamou de "corrupta" Begoña Gómez, mulher do primeiro-ministro Pedro Sánchez, relembrou o La Nación. A embaixadora não voltou ao posto, e o impasse só foi encerrado meses depois, com a nomeação de um novo representante.

Fontes consultadas nesta apuração

  • Javier Milei
  • Lula
  • Itamaraty
  • Alexandre de Moraes
  • Flávio Bolsonaro
  • Argentina
  • crise diplomática
  • eleições 2026