A Nvidia negocia conceder uma garantia financeira de cerca de US$ 250 bilhões à OpenAI para que a dona do ChatGPT, comandada por Sam Altman, possa alugar um complexo de data centers de 10 gigawatts em construção no sul de Ohio, nos Estados Unidos. A informação foi publicada pelo Wall Street Journal na noite de domingo (26) e replicada pela Reuters, que registrou não ter conseguido confirmar o relato de forma independente.
Somados os chips que equipariam a instalação, o empreendimento pode custar mais de US$ 500 bilhões, o que faria dele o maior projeto de centro de dados já anunciado, segundo o jornal americano. As conversas seguem em andamento e os termos não foram fechados: as pessoas ouvidas pelo WSJ afirmam que o acordo ainda pode não sair.
Como funcionaria a garantia
A OpenAI é uma empresa de capital fechado, ainda sem lucro e sem classificação de crédito de grau de investimento, condição que encarece qualquer captação de grande porte. Pelo desenho em discussão, a Nvidia entraria como garantidora do contrato de locação e da dívida de construção do campus, permitindo que o financiamento saia a custos menores.
O aval de US$ 250 bilhões não cobriria os chips instalados na infraestrutura, apurou o Olhar Digital a partir do relato do WSJ. Para essa parte há uma segunda negociação em curso, que poderia alcançar US$ 350 bilhões. O formato tem nome no setor — credit wrapper — e já foi usado antes: o Google ofereceu garantias semelhantes a data centers utilizados pela Anthropic.
Energia federal e dinheiro japonês
O complexo será erguido em uma antiga instalação de enriquecimento de urânio desativada, a cerca de 80 quilômetros ao sul de Columbus. A primeira fase, com aproximadamente 800 megawatts, tem conclusão prevista para 2028, e a obra completa deve levar anos.
A eletricidade virá de uma usina a gás natural em terreno federal, bancada por um investimento japonês de US$ 33 bilhões acertado dentro do acordo comercial entre Washington e Tóquio. A operação ficará com a SoftBank Energy, e os dois países dividirão a receita da venda de energia até que o aporte japonês seja recuperado; depois disso, o governo americano fica com 90%. O secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, participa da definição de quais empresas terão acesso a esse fornecimento — e, segundo o WSJ, Anthropic, Microsoft e Google também procuraram o governo para tratar do projeto.
Se avançar, o campus de Ohio será o primeiro data center ocupado pela OpenAI diretamente como locatária, reduzindo a dependência de nuvens de terceiros como Microsoft, Amazon e Oracle. A empresa elevou recentemente sua projeção de gastos com capacidade computacional para cerca de US$ 750 bilhões até 2030, ante estimativa anterior de US$ 600 bilhões.
Ceticismo no mercado
A estrutura reacendeu a discussão sobre a circularidade dos negócios de inteligência artificial, em que o fornecedor de chips ajuda a financiar quem compra seus chips. O investidor Michael Burry, conhecido pela aposta contra o mercado imobiliário americano em 2008, escreveu no X, conforme a Benzinga: "Rodando e rodando. A Nvidia vai garantir US$ 200 bilhões dos gastos do ChatGPT com chips da Nvidia" — ele citou um valor menor que os US$ 250 bilhões descritos pelo WSJ.
O analista Ed Zitron, também citado pela Benzinga, classificou o arranjo como "uma coisa insana de se fazer em tantos níveis" e questionou de onde sairia o dinheiro. Em seu relatório anual mais recente, a própria Nvidia — avaliada em torno de US$ 5 trilhões — afirma que acordos de financiamento de data centers podem reduzir seu fluxo de caixa no curto prazo e ampliar a exposição ao risco de crédito de clientes. As ações da companhia fecharam a sexta-feira em queda de 0,92%, a US$ 206,84, segundo a Benzinga Pro.
O outro lado
Nvidia e OpenAI não responderam de imediato aos pedidos de comentário da Benzinga. O Olhar Digital afirma ter procurado as assessorias das duas empresas e aguardar retorno, e diz não ter conseguido contato com o SoftBank. As negociações são tratadas por todas as fontes como preliminares.
Ficha técnica
- Garantia em discussão: cerca de US$ 250 bilhões (aluguel e dívida de construção)
- Financiamento separado para chips: até US$ 350 bilhões
- Custo total estimado do projeto: mais de US$ 500 bilhões
- Capacidade: 10 GW, com 800 MW na primeira fase, prevista para 2028
- Local: antiga usina de enriquecimento de urânio no sul de Ohio (EUA)