O governo dos Estados Unidos afirmou nesta quarta-feira (16) que o Brasil "falhou em confrontar" o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) e cobrou medidas urgentes contra as duas facções. A crítica consta da determinação presidencial sobre os principais países de trânsito ou produção de drogas ilícitas para o ano fiscal de 2027, documento anual enviado pela Casa Branca ao Congresso americano na terça (15) e publicado pelo Departamento de Estado nesta quarta.
No mesmo texto, o presidente Donald Trump retirou a Venezuela da relação de países que "falharam de forma demonstrável" no combate ao narcotráfico — a primeira vez em mais de 20 anos, segundo a Reuters — e sinalizou que a Colômbia pode ser a próxima a deixar essa lista.
O que o documento diz sobre o Brasil
Segundo o Poder360, que publicou a íntegra do documento, o trecho sobre o Brasil afirma: "Enquanto muitos governos no Hemisfério Ocidental estão tomando medidas corajosas para reduzir o fluxo de drogas e erradicar cartéis, o governo do Brasil falhou em confrontar o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho, que transformaram o Brasil em um centro para o fluxo global de cocaína".
O texto diz que as facções "são uma ameaça crescente à paz e à segurança ao redor do mundo" e cobra que o Brasil tome "urgentemente" medidas "para confrontá-las e derrotá-las antes que se espalhem e cresçam".
De acordo com a Band, que reproduziu apuração da Estadão Conteúdo, o documento não detalha quais ações Washington espera do Brasil nem apresenta dados sobre o volume de drogas atribuído às facções. A cobrança aparece em uma seção que avalia os esforços de governos do Hemisfério Ocidental, na qual Argentina, Equador e El Salvador são citados como exemplos positivos.
Brasil fora da lista principal
Apesar das críticas, o Brasil não integra a relação formal dos 23 países identificados pelos EUA como grandes produtores ou territórios de trânsito de drogas, segundo a CartaCapital e a Band. A lista, reproduzida pela CNN Brasil, inclui Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, México, China e Índia.
O próprio documento ressalva que a presença nessa lista não significa necessariamente uma avaliação negativa dos esforços do governo local, já que também pesam fatores geográficos, comerciais e econômicos que facilitam a produção ou a circulação de entorpecentes.
Venezuela sai, Colômbia pode sair
Trump afirmou que a Venezuela "não deve mais ser classificada como um país que falhou de forma demonstrável em cumprir seus compromissos de controle de drogas". O país estava nessa categoria desde 2005, segundo a Reuters, em reportagem publicada pela CNN Brasil.
O presidente atribuiu a mudança à cooperação com o governo interino venezuelano, liderado por Delcy Rodríguez, ex-vice de Nicolás Maduro — deposto e preso em janeiro em operação promovida pela administração americana. Entre os resultados citados está a morte do líder da gangue Tren de Aragua conhecido como "Niño Guerrero". "Espero ver um progresso contínuo e mensurável por parte do governo interino no desmantelamento de grupos narcoterroristas", disse Trump.
Sobre a Colômbia, incluída no ano passado na lista de países que "falharam", em meio ao atrito entre Trump e o então presidente Gustavo Petro, o americano disse que o país "está pronto para retomar seu lugar como nossa principal parceira de segurança no hemisfério" após a eleição de Abelardo De La Espriella, que tomou posse em agosto. Se a Colômbia avançar "na erradicação agressiva da coca" ao longo do próximo ano, Trump afirmou que considerará revogar a classificação.
Contexto: facções na lista de terroristas desde maio
A cobrança ao Brasil vem menos de quatro meses depois de os EUA classificarem PCC e CV como terroristas. Segundo a CartaCapital, o Departamento de Estado anunciou a medida em 29 de maio, três dias depois de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmar ter pedido a inclusão das facções a Trump, em encontro na Casa Branca. A publicação no Diário Oficial americano ocorreu em 5 de junho, de acordo com o Poder360.
A classificação permite aos EUA bloquear ativos e punir quem mantenha relações com integrantes dos grupos, segundo o Poder360. À época, o Itamaraty alertou a Câmara sobre riscos à soberania nacional, conforme a CartaCapital.