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Vacina de mRNA 100% brasileira é liberada para teste em humanos

A Anvisa autorizou o imunizante da Fiocruz contra a Covid-19 a entrar nos estudos clínicos. A Fase 1 deve começar no primeiro trimestre de 2027, e a mesma plataforma já é estudada contra câncer, dengue e malária.

Redação Apuramos

Publicado em

Sangharsh Lohakare/Unsplash — imagem ilustrativa
Sangharsh Lohakare/Unsplash — imagem ilustrativa

O Brasil vai testar em seres humanos, pela primeira vez, uma vacina desenvolvida integralmente no país com tecnologia de RNA mensageiro (mRNA). O imunizante contra a Covid-19 criado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) recebeu autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para avançar à etapa de estudos clínicos.

Segundo o Olhar Digital, a liberação transforma o produto na primeira vacina de mRNA desenvolvida do início ao fim no Brasil a chegar a testes com voluntários. O recrutamento da Fase 1 está previsto para o primeiro trimestre de 2027, depois da aprovação do protocolo pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Os participantes serão acompanhados por um ano.

A vacina foi formulada para proteger contra as variantes atuais do coronavírus, incluindo a atualização mais recente exigida pela Anvisa para os imunizantes contra a Covid-19.

Como a tecnologia funciona

Em vez de aplicar uma proteína pronta ou um vírus enfraquecido, a plataforma de mRNA entrega às células uma instrução genética. No caso do produto da Fiocruz, essa mensagem faz com que o organismo produza temporariamente um fragmento da proteína Spike do coronavírus. O sistema imunológico reconhece a estrutura como estranha e passa a montar anticorpos e outras respostas de defesa.

O ponto considerado mais relevante pelos pesquisadores é a origem dos componentes. Tanto a estrutura genética quanto a nanopartícula lipídica que protege e transporta o RNA foram desenvolvidas no Brasil, sem importação nem licenciamento de plataformas estrangeiras.

R$ 210 milhões e uso além da Covid

O Ministério da Saúde anunciou R$ 210 milhões para pesquisas com a plataforma de RNA mensageiro nos próximos anos. Os recursos devem apoiar trabalhos da Fiocruz, do Instituto Butantan e do Centro de Tecnologia de Vacinas (CT-Vacinas), em Minas Gerais.

Como o mRNA funciona como uma base reaproveitável — muda-se a informação genética, mantendo a mesma estrutura —, a tecnologia já está sendo adaptada por grupos brasileiros para outras frentes: tratamentos experimentais contra o câncer, uma versão da terapia CAR-T baseada em mRNA e vacinas contra dengue, malária e doença de Chagas.

Uma dessas pesquisas usa o mRNA para fazer células tumorais produzirem uma proteína com atividade antitumoral. Em testes com animais, a estratégia reduziu em até 85% o volume de tumores sólidos, incluindo os de cólon. Os resultados ainda são pré-clínicos: segurança e eficácia em pessoas precisarão ser avaliadas em etapas posteriores.

"Marco para a soberania do país"

Ao Jornal da Fronteira, a pesquisadora da Fiocruz Patrícia Neves afirmou que o avanço muda o papel do Brasil na área. "Isso é um grande marco para o Brasil, para que a gente se posicione como líder da biotecnologia na América Latina nessa área. É um marco para a soberania do país e para a pesquisa brasileira", disse.

A secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do Ministério da Saúde, Fernanda Negri, avaliou que "a pesquisa brasileira pode ser capaz de competir internacionalmente, produzindo inovação e desenvolvimento tecnológico no país". Desde 2021, a Fiocruz é centro de referência em mRNA para a América Latina e o Caribe por reconhecimento da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A entrada nos estudos clínicos não significa aprovação. Os testes em humanos ainda precisarão demonstrar segurança, resposta imunológica e, mais adiante, eficácia antes de qualquer uso na população.

Fontes consultadas nesta apuração

  • vacina
  • mRNA
  • Fiocruz
  • Anvisa
  • Covid-19
  • Ministério da Saúde
  • ciência

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