Xi telefona a Lula e diz que China rejeita interferência no Brasil
Conversa de mais de uma hora ocorreu na noite de domingo, em meio à escalada tarifária dos EUA; nota brasileira sobre a ligação não usa a expressão citada por Pequim
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Conversa de mais de uma hora ocorreu na noite de domingo, em meio à escalada tarifária dos EUA; nota brasileira sobre a ligação não usa a expressão citada por Pequim
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O presidente da China, Xi Jinping, afirmou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que Pequim apoia o Brasil "na salvaguarda de sua soberania e independência" e se opõe à "interferência externa" no país. A declaração foi feita durante conversa telefônica de mais de uma hora realizada na noite deste domingo (26) e divulgada pela agência estatal chinesa Xinhua, conforme reportou a AFP na manhã desta segunda-feira (27).
O telefonema acontece a cerca de três meses do primeiro turno das eleições brasileiras e em meio ao aumento da pressão comercial e política dos Estados Unidos sobre o governo brasileiro.
"A China valoriza muito o status internacional do Brasil e sua importante influência", declarou Xi, segundo despacho da Xinhua citado pela AFP. O líder chinês acrescentou que seu país apoia o Brasil "na oposição à interferência externa e na contribuição para a manutenção da paz e estabilidade regionais e mundiais".
De acordo com o Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista Chinês citado pela agência Lusa, Xi também afirmou que China e Brasil, como "membros importantes do Sul Global", devem se posicionar do "lado certo da história" e desempenhar papel "mais construtivo" na reforma do sistema de governança global.
Os dois relatos oficiais não coincidem. A AFP observou que a nota divulgada no Brasil sobre a conversa não menciona as "interferências externas" citadas pela agência chinesa. Segundo o Brasil de Fato, o comunicado do Itamaraty concentrou-se na agenda bilateral e nos temas multilaterais, sem reproduzir a formulação de Pequim.
Os dois presidentes reiteraram o compromisso de ampliar a parceria em inteligência artificial, satélites, beneficiamento de minerais críticos e comércio de fertilizantes, de acordo com nota do Ministério das Relações Exteriores reproduzida pelo Brasil de Fato. Também concordaram em acelerar as negociações de um acordo entre o Mercosul e a China — ponto que Lula destacou em sua conta na rede social X, conforme a AFP. Na mesma ligação, disse o presidente brasileiro, o governo "segue comprometido com a diversificação de mercados e parceiros comerciais".
Ainda segundo o Brasil de Fato, os líderes trataram da guerra na Ucrânia e da situação no Oriente Médio, manifestaram "profunda preocupação" com Gaza e avaliaram que restrições à navegação nos estreitos de Ormuz e Bab el-Mandeb prejudicam a economia mundial. Foi o primeiro telefonema entre os dois desde janeiro deste ano.
A tarifa de 25% sobre produtos brasileiros entrou em vigor em 22 de julho, uma semana depois de os Estados Unidos anunciarem a medida com base em investigação do escritório de comércio norte-americano (USTR) sob a Seção 301, informou o Metrópoles, que registrou ainda uma lista de exceções com itens como café, carne bovina e laranja. Pela Lusa, o governo brasileiro rejeita a legitimidade da investigação, anunciou que vai acionar a Lei da Reciprocidade e pretende levar o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.
A AFP lembra que houve um aumento inicial de tributos em 2025, apresentado como represália ao julgamento que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, e que Lula classifica as tarifas como tentativa de exercer influência política em ano eleitoral.
Na sexta-feira (24), o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA, o subsecretário Riley Barnes e o subsecretário adjunto Samuel Samson, que pretendiam conversar com autoridades eleitorais sobre liberdade de expressão relacionada ao pleito de outubro. A recusa foi confirmada no sábado (25), apurou a Agência Brasil; o governo avaliou que a visita representaria "instrumentalização política" do processo eleitoral.
Até a publicação desta reportagem, não havia, nas fontes consultadas, manifestação pública do governo dos Estados Unidos sobre o telefonema. Washington sustenta que a sobretaxa decorre da investigação comercial conduzida pelo USTR.
Também não havia registro de comentário de Flávio Bolsonaro (PL), que disputará a eleição de outubro com Lula, sobre a conversa entre os dois presidentes. O pré-candidato afirmou em 21 de julho, sem apresentar provas, que as urnas eletrônicas brasileiras teriam relação com a empresa venezuelana Smartmatic — informação negada pelo Tribunal Superior Eleitoral no dia 22, segundo a Agência Brasil.
A China é o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009. O comércio entre os dois países somou US$ 171 bilhões em 2025, alta de 8,2% sobre o ano anterior, e o Brasil foi o maior destino do investimento chinês no período, com US$ 6,1 bilhões, de acordo com dados do governo brasileiro citados pela Lusa.
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