O Banco Central decretou nesta quinta-feira (3) a liquidação extrajudicial da Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e da Banvox Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, duas empresas com sede em São Paulo e ligadas ao caso Banco Master. A partir desta quinta, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores das duas instituições.
Em nota, o BC afirmou que a decretação "foi motivada pela existência de graves violações às normas legais que disciplinam as atividades das instituições".
Segundo a InfoMoney, o ato foi assinado pelo diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, que responde interinamente pela presidência do Banco Central durante viagem do presidente Gabriel Galípolo a Basileia, na Suíça. As duas distribuidoras passam a ser comandadas pela liquidante Marilena Simões Valentim.
A ligação com o caso Master é direta. Como mostrou o Poder360, a Trustee DTVM era a principal administradora dos fundos do Master Asset Management, braço de gestão de recursos do conglomerado. A Banvox integrava o mesmo conglomerado prudencial. As duas eram ligadas a Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master.
A Trustee também já esteve no centro de uma investigação da Polícia Federal. Em 2025, foi alvo da Operação Carbono Oculto, que apurou um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio com uso de fintechs e fundos de investimento. Segundo informações da Receita Federal citadas pelo Poder360, o grupo investigado chegou a controlar cerca de 40 fundos, com patrimônio total estimado em R$ 30 bilhões.
Depois da deflagração da operação, a Trustee afirmou que havia deixado a administração dos fundos investigados antes da ação da Polícia Federal, após identificar inconsistências relacionadas à atualização cadastral.
O próprio Banco Central tratou de delimitar o tamanho do problema. As duas distribuidoras integram um conglomerado prudencial classificado no segmento S4 da regulação prudencial, faixa reservada às instituições de menor porte, e têm baixa representatividade no Sistema Financeiro Nacional (SFN).
Em julho de 2026, as duas instituições representavam, em conjunto, menos de 0,001% do ativo total ajustado do SFN e 0,76% do volume de administração de recursos de terceiros, informou a autoridade monetária.
A liquidação extrajudicial é o regime em que o Banco Central retira uma instituição financeira do mercado, nomeia um liquidante e passa a apurar ativos e passivos para pagar credores. Ao contrário de uma falência comum, ela é decretada pelo próprio regulador, e não pela Justiça.
Vale a distinção: DTVMs distribuem e administram produtos de investimento, mas não captam depósitos à vista ou poupança como um banco de varejo. O que está em jogo nas duas empresas é, sobretudo, a administração de recursos de terceiros.
O BC informou que continuará adotando todas as medidas cabíveis para apurar responsabilidades. O resultado dessas apurações, segundo a autarquia, pode levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes.
Segundo o Poder360, Maurício Quadrado é ex-sócio de Daniel Vorcaro, nome no centro do caso Master. A decisão desta quinta-feira alcança, assim, a estrutura de administração de fundos que orbitava o conglomerado, e não o banco em si, cuja liquidação já havia sido decretada anteriormente pelo Banco Central.