Cientistas identificaram pela primeira vez um câncer transmissível em peixes. Segundo estudo publicado em 22 de julho na revista Nature, tumores de pele que afetam bagres-cabeça-chata no Lago Memphremagog, na fronteira entre o estado americano de Vermont e a província canadense de Quebec, não surgem de forma independente em cada animal: são células cancerosas de uma mesma linhagem que passam de um peixe para outro.
De acordo com a Universidade de Vermont, que liderou a pesquisa, é o quarto tipo de câncer transmissível já documentado no reino animal e o primeiro registrado em um peixe e em ambiente de água doce. As células, descrevem os pesquisadores, comportam-se mais como parasitas do que como tumores convencionais.
Uma década atrás de uma explicação
A investigação começou em 2012, quando pescadores e biólogos passaram a relatar aumento de bagres com manchas escuras elevadas na pele. Por volta de 2014, quase um em cada três peixes apresentava as lesões, segundo a universidade. As análises identificaram melanoma — um câncer de pele.
"No começo, achamos que essa doença poderia ser um vírus, mas isso não se confirmava", disse Julie Dragon, cientista da Universidade de Vermont e uma das líderes do estudo, à assessoria da instituição. O achado surpreendeu porque o melanoma é associado à exposição ao sol, e o bagre vive no fundo do lago. "Queríamos saber como um peixe de fundo estava adquirindo um câncer que associamos à exposição excessiva à luz solar."
Testes descartaram níveis elevados de poluentes e a ação de vírus ou bactérias, relata o Olhar Digital. A equipe então sequenciou o genoma completo dos tumores e dos tecidos saudáveis — e encontrou um padrão inesperado: as células tumorais de peixes diferentes eram geneticamente mais parecidas entre si do que com os próprios animais que as carregavam, assinatura de um câncer clonalmente transmissível.
Como as células se espalham
Os pesquisadores ainda investigam o mecanismo de transmissão. "Parece acontecer apenas em peixes maiores, em idade reprodutiva", afirmou Mark Henderson, biólogo e outro líder do estudo, à Universidade de Vermont. "Talvez alguma parte do comportamento de desova leve à disseminação do câncer entre os animais." Durante a desova, os bagres se agrupam em águas rasas, o que favorece o contato físico; por não terem escamas e viverem junto ao sedimento, também podem entrar em contato com células livres na água.
A equipe encontrou ainda níveis elevados de arsênio nas células tumorais e observou que a distribuição geográfica da doença parece acompanhar a concentração natural do elemento no solo da região. A hipótese de contaminação por um aterro próximo foi descartada: o câncer aparece de forma homogênea ao longo dos 51 quilômetros do lago, e não concentrado perto do aterro.
Quarto caso conhecido — e sem risco a humanos
Antes deste, cânceres transmissíveis haviam sido descritos apenas em cães, no diabo-da-Tasmânia e em moluscos bivalves, como mariscos e mexilhões. Nos diabos-da-Tasmânia, a doença tumoral facial chegou a dizimar 90% de algumas populações; já o tumor venéreo canino convive com seus hospedeiros há milhares de anos, aponta a universidade.
Como o Lago Memphremagog abastece de água potável mais de 175 mil pessoas, os pesquisadores fazem questão de destacar que não há risco conhecido para seres humanos: as células cancerosas não infectam nem sobrevivem em outra espécie. Ainda assim, Henderson disse que, pessoalmente, não comeria os exemplares com tumores. Não há indicação de que cânceres transmissíveis circulem entre pessoas.
Para Dragon, o achado sugere que o fenômeno pode ser menos raro do que se pensa. "Talvez não seja tão raro quanto todos acham. A gente simplesmente não está enxergando", afirmou. "No caso dos cânceres transmissíveis, pode ser que vejamos poucos simplesmente porque não estamos procurando por eles."
Este texto tem caráter informativo e não substitui orientação de profissionais de saúde.