O Google começou a aplicar nesta terça-feira (8) uma reformulação nos resultados de busca em toda a União Europeia para cumprir a Lei dos Mercados Digitais (DMA) — e a própria empresa admite que o serviço vai piorar. Segundo a Reuters, um representante do Google classificou a mudança como a maior redução de qualidade nos 29 anos de história do buscador.
A alteração vale apenas para usuários dentro do bloco europeu. Quem pesquisa no Brasil ou em qualquer outro país fora da UE não verá diferença, de acordo com o comunicado enviado pela empresa à agência.
O que muda na página de resultados
Na nova disposição, um serviço de busca especializado — caso de sites de comparação de preços como Booking.com e Expedia — aparece em destaque no topo da página. Logo abaixo vêm outros dois serviços do mesmo tipo, com menos detalhes. Só então surge o carrossel de hotéis, companhias aéreas e restaurantes, que perde recursos como preços em tempo real. A ordem continua sendo definida pelo algoritmo do Google, informou a Reuters.
"Para cumprir os requisitos da DMA, estamos fazendo mudanças significativas na Pesquisa na Europa", afirmou Nick Fox, vice-presidente sênior de conhecimento e informação do Google, em nota reproduzida pelo InfoMoney. "Essas mudanças prejudicam a experiência do usuário para os europeus — favorecendo intermediários online em detrimento das empresas locais e removendo recursos úteis com os quais as pessoas contam no dia a dia."
Por que o Google está fazendo isso
A reformulação é resposta direta a uma punição de Bruxelas. Em 23 de julho, a Comissão Europeia multou o Google em € 460 milhões por favorecer os próprios serviços nos resultados de compras, hotéis, transporte e esportes, em violação à DMA. No mesmo dia, aplicou outra multa, de € 430 milhões, relacionada à loja Google Play. O total de € 890 milhões é a maior sanção já imposta sob a lei, segundo a Comissão Europeia.
Junto com a multa veio um prazo de 60 dias para adequação. Se não cumprisse, a empresa ficaria sujeita a multas periódicas de até 5% do faturamento mundial, de acordo com a Reuters.
Argumento da empresa: quem perde é o negócio local
O Google sustenta que a UE apresentou as exigências como forma de nivelar a concorrência, mas que, na prática, elas beneficiam os chamados serviços de busca vertical — sites de comparação de preços, como Booking.com e Expedia — e não os estabelecimentos em si, que passam a aparecer apenas com link, telefone e endereço.
A empresa afirma que ajustes anteriores feitos para cumprir a DMA já provocaram queda de 30% no tráfego de reservas diretas e gratuitas para negócios europeus. Também diz ter testado o novo layout com milhões de usuários no continente e registrado alto nível de insatisfação, porque as pessoas precisam redigitar a pesquisa para achar o que querem, segundo a Reuters.
Histórico de embates com Bruxelas
A disputa é antiga. Ao longo de quase duas décadas, o Google acumulou € 10,38 bilhões em multas antitruste na UE, de acordo com a Reuters. Desde que a DMA entrou em vigor, em 2024, a Comissão também já multou a Meta em € 200 milhões e a Apple em € 500 milhões, ambas em 2025, conforme a agência AFP.
Em julho, quando a punição foi anunciada, Kent Walker, presidente de assuntos globais do Google, já havia antecipado o roteiro. "Para cumpri-la, somos obrigados a retirar funcionalidades de busca em tempo real que os europeus valorizam, como a visualização instantânea de preços e a disponibilidade direta de hotéis, voos e restaurantes", disse à AFP na ocasião.
As multas europeias também geraram reação em Washington. O presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou abrir uma investigação sobre o que chamou de "roubo" de empresas americanas pelo bloco, informou a Reuters.
E o Brasil?
Por enquanto, nada muda para o usuário brasileiro: a reformulação se restringe aos 27 países da União Europeia. O caso, porém, mostra na prática o efeito de uma lei de concorrência digital sobre o buscador mais usado do mundo — e o custo que o Google está disposto a assumir, e a divulgar, para evitar novas multas.