O Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou nesta segunda-feira (7) que a inteligência artificial avançada pode representar "um risco existencial para a humanidade" e cobrou a criação urgente de mecanismos internacionais de governança para a tecnologia.
A declaração foi feita em discurso na 63ª sessão do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Segundo o Diário do Grande ABC, com Estadão Conteúdo, Türk defendeu que governos e empresas ajam "antes que seja tarde demais".
"Compartilho as preocupações de pessoas do setor de que uma IA avançada pode representar um risco existencial à humanidade", disse o Alto-Comissário. "Uma IA que escapa do ambiente de teste ou chantageia desenvolvedores para impedir que seja desligada é uma IA poderosa demais."
Cartas às empresas do setor
Türk anunciou que escreverá nos próximos dias às empresas de inteligência artificial para pedir a adoção imediata de medidas de redução de risco. No mesmo discurso, fez um chamado a um "esforço total para estabelecer garantias inquebráveis sobre segurança e proteção da IA".
Ele propôs ainda que os países que hospedam sistemas de IA e os que participam de suas cadeias de suprimentos acordem "linhas vermelhas" comuns. "Precisamos de verificação independente e de colaboração muito mais forte em segurança dentro do setor", afirmou.
De acordo com o Times Brasil, licenciado exclusivo da CNBC, o Alto-Comissário avalia que o poder sobre o desenvolvimento da tecnologia está concentrado em um número pequeno de companhias e executivos. "Um punhado de homens tem poder quase ilimitado sobre a IA", disse. "Falam de liberdade, mas, olhando mais de perto, isso se revela pouco mais do que a liberdade de explorar nossos dados."
Incidentes recentes pesam no alerta
O aviso ocorre depois de uma sequência de episódios envolvendo sistemas de IA. Em julho, a OpenAI informou que seus modelos estiveram por trás de um "incidente cibernético sem precedentes" que afetou a plataforma para desenvolvedores da Hugging Face, conforme registrado pelas duas publicações.
Casos envolvendo outras empresas do setor, como Anthropic e Alibaba, também foram registrados e ampliaram o debate sobre os riscos associados ao avanço desses sistemas.
Para Türk, esses episódios reforçam a necessidade de criar mecanismos de controle antes que a tecnologia chegue a um ponto em que os riscos sejam mais difíceis de administrar.
"Vivemos uma era de extremos"
Na mesma fala, o Alto-Comissário ligou o avanço tecnológico ao quadro internacional atual. "Vivemos uma era de extremos. Guerras devastadoras, polarização dolorosa, caos climático e mudanças tecnológicas vertiginosas fazem com que as pessoas se sintam desorientadas e até impotentes", afirmou.
Türk criticou o discurso de que essas transformações seriam inevitáveis. "Magnatas da tecnologia, populistas e interesses instalados, amplificados por câmaras de eco nas redes sociais, dizem-nos que essas tendências são inevitáveis. Na verdade, é o oposto", disse.
Ele encerrou o trecho com um apelo à mobilização: "A História está repleta de pessoas corajosas que agiram para resistir à opressão e exigir seus direitos".
O que é o Conselho de Direitos Humanos
O Conselho de Direitos Humanos é o principal fórum intergovernamental da ONU dedicado ao tema. É formado por 47 Estados-membros eleitos pela Assembleia-Geral, e suas sessões ordinárias são realizadas em Genebra, na Suíça.
O Alto-Comissariado, chefiado por Türk desde 2022, é o escritório da ONU responsável por monitorar e promover os direitos humanos no mundo. As posições defendidas pelo Alto-Comissário não têm efeito vinculante sobre os países nem sobre as empresas citadas.