O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) publicou neste domingo (26) um artigo no jornal norte-americano The Washington Post em que classifica as novas tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros como um "erro estratégico" e afirma que o país não será vencido com base em informações falsas. O texto foi ao ar três dias depois de Washington confirmar uma sobretaxa adicional de 12,5%, que elevou a taxação sobre parte das exportações do Brasil a até 37,5%.
"Tentativas de impor condicionantes ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não prosperarão. Nunca antes um secretário de Estado dos EUA declarou que o Brasil não é amigo dos Estados Unidos. Ninguém nos derrotará com mentiras", escreveu o presidente, em trecho reproduzido pelo Poder360 e pela Exame.
O que diz o artigo
Segundo o Poder360, Lula sustenta que as sobretaxas prejudicam os dois países, porque setores da indústria americana dependem de insumos brasileiros — e que alimentos, calçados, móveis e autopeças devem ficar mais caros para o consumidor dos EUA. O presidente também rebate as justificativas apresentadas por Washington: afirma que o Brasil combate crimes nas redes sociais sem restringir a liberdade de expressão, que o Pix não discrimina empresas americanas e que o desmatamento caiu de forma significativa desde 2023.
O texto reúne ainda números sobre o efeito comercial da disputa. De acordo com o resumo do Poder360, Lula afirma que o comércio bilateral com os Estados Unidos recuou 12,8% no primeiro semestre de 2026, enquanto as trocas com a União Europeia subiram 6,1% e com a China, 15,9%. O presidente diz que as exportações brasileiras ao mercado americano estão no menor nível desde 1997 e cita levantamento da organização suíça Global Trade Alert segundo o qual Brasil e Turquia se tornaram os países mais tarifados pelos EUA, atrás apenas da China.
Apesar das críticas, o petista afirma que o Brasil segue aberto ao diálogo. "Estamos prontos para continuar um diálogo aberto e construtivo. Mas o destino do Brasil cabe apenas aos brasileiros decidir, sem interferência estrangeira nem subserviência", escreveu, conforme o Poder360. Ele acrescenta que o país tem "os mecanismos adequados" para garantir reciprocidade.
As duas tarifas
A conta atual soma duas medidas. A primeira, de 25%, resultou de uma investigação da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA sobre supostas práticas comerciais brasileiras consideradas desleais, conforme relatou a Exame.
A segunda foi confirmada em 23 de julho pelo USTR, o escritório do representante comercial americano. Como informou a CNN Brasil, a medida atinge 60 economias e prevê alíquota de 10% para países que, na avaliação do órgão, se comprometeram a proibir a importação de bens produzidos com trabalho forçado, e de 12,5% para os que não adotaram esse tipo de proibição. O Brasil foi enquadrado na faixa mais alta. A nova alíquota passou a valer à 1h01 de sexta-feira (24), no horário de Brasília, e há exceções — entre elas produtos já sujeitos às tarifas da Seção 232 e matérias-primas sem oferta interna suficiente nos EUA.
O outro lado
A justificativa oficial de Washington é a das investigações da Seção 301: no caso mais recente, a avaliação do USTR de que o Brasil falhou em impedir a entrada de produtos ligados ao trabalho forçado em suas cadeias de suprimento. Até o fechamento desta reportagem, não havia registro, nos veículos consultados, de resposta pública do governo norte-americano ao artigo de Lula.
Relembre o caso
A escalada comercial começou em 2025, quando o presidente Donald Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros em um comunicado que fazia referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) — condenado por tentativa de golpe de Estado e hoje em prisão domiciliar, segundo o Poder360. O artigo no Washington Post também saiu um dia depois de o Itamaraty negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA que pretendiam vir ao Brasil discutir a integridade do sistema eleitoral, conforme apurou o Correio Braziliense.