A Testemunhas de Jeová passou a permitir, desde este mês, que seus fiéis decidam individualmente se aceitam receber ou doar quatro componentes do sangue — glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma e plaquetas. A mudança foi comunicada em boletim oficial publicado no site da denominação em 18 de setembro e repercutiu em veículos de todo o país nos últimos dias.
Segundo a CNN Brasil, a decisão do Corpo Governante — instância máxima de liderança da organização — baseia-se na interpretação de Atos 15:28-29. Para os líderes da denominação, o trecho bíblico não cita explicitamente os componentes sanguíneos isolados, apenas o "sangue" de forma genérica, o que teria aberto espaço para tratar a escolha como uma questão de consciência individual.
O que não muda: transfusões de sangue total continuam proibidas para os fiéis, prática que a religião considera contrária a um mandamento bíblico há décadas.
Em nota reproduzida pelo portal Mais Goiás, o porta-voz internacional da organização, Paul Gillies, afirmou que "para as Testemunhas de Jeová, o sangue continua sendo sagrado, e elas continuam a considerar a vida e o sangue como presentes preciosos de Deus".
Essa é a segunda flexibilização do ano sobre o tema. Em março de 2026, a denominação já havia autorizado a coleta, o armazenamento e o uso posterior do próprio sangue do paciente — prática usada em cirurgias para reduzir a necessidade de transfusão externa.
De acordo com o Mais Goiás, a Testemunhas de Jeová reúne hoje cerca de 9 milhões de fiéis em todo o mundo, dos quais aproximadamente 900 mil vivem no Brasil.
O tema tem repercussão direta no sistema de saúde brasileiro. Segundo a CNN Brasil, apenas 1,4% da população do país doa sangue regularmente — patamar considerado abaixo do ideal pelo Ministério da Saúde —, o que reforça a atenção de hospitais e bancos de sangue a qualquer mudança que possa ampliar, mesmo que de forma limitada, o número de doadores e receptores elegíveis entre os fiéis.
A discussão sobre recusa religiosa a procedimentos médicos já havia passado pelo Judiciário brasileiro. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal decidiu, por unanimidade, que testemunhas de Jeová maiores de idade têm o direito de recusar transfusões de sangue por convicção religiosa, desde que a decisão seja livre, informada e expressa antes do procedimento — inclusive por meio de diretiva antecipada de vontade. A Corte também assegurou o acesso a tratamentos alternativos pelo SUS, mesmo que seja necessário buscar atendimento fora da cidade de residência do paciente, segundo a CNN Brasil.
Hospitais que atendem pacientes da denominação costumam manter protocolos específicos, com técnicas cirúrgicas que reduzem a perda de sangue e o uso de expansores de volume, para respeitar a recusa à transfusão total sem comprometer o tratamento.
A nova diretriz não altera a autonomia das congregações locais, que, segundo os veículos que noticiaram o caso, não devem interferir nas escolhas individuais dos fiéis sobre os quatro componentes agora liberados à consciência de cada um.